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quinta-feira, 11 de julho de 2013

A FADA ORIANA - VIII. O POETA


VIII. O POETA

Até que o sol se pôs, veio a noite e o rio escureceu. Oriana deixou de ver o seu reflexo. Levantou-se e ficou algum tempo imóvel a cismar. Depois olhou à sua volta e disse:
- Chegou a noite! Como o tempo passou depressa!
Então lembrou-se de que era a hora de ir visitar o seu amigo Poeta. Porque a única pessoa crescida a quem Oriana podia aparecer era ao Poeta. Porque ele era diferente das outras pessoas crescidas.
O Poeta morava no fundo da floresta, numa torre muito alta e muito antiga, coberta de heras, de glicínias e de roseiras.
Oriana voou sobre as árvores através do primeiro azul da noite. A porta da torre estava aberta, mas Oriana entrou pela janela com a brisa. As rosas da trepadeira estremeceram e dançaram quando ela chegou.
- Hoje vens tarde – disse o Poeta.
- estive debruçada sobre o rio a ver o meu reflexo – respondeu Oriana. - Demorei-me porque fiquei encantada com a minha beleza.
- Oriana, – pediu o Poeta – encanta a noite.
Então Oriana tocou com a varinha de condão na noite e a noite ficou encantada.
E o Poeta disse-lhe:
- O que tu me trazes é muito mais que beleza. No mundo há muitas meninas bonitas. Mas só tu que podes encantar a noite porque és uma fada.
Então Oriana sentou-se na beira da janela e contou as histórias maravilhosas dos cavalos do vento, da caverna dos dois dragões e dos anéis de Saturno. O Poeta disse-lhe os seus versos, que eram claros e brilhantes como estrelas. Depois ficaram os dois calados enquanto a Lua subia no céu. Até que um sino trouxe de longe o som das doze badaladas da meia-noite e Oriana e o Poeta despediram-se.
No dia seguinte de manhã foi levar a velha à cidade. Mal voltou da cidade voou rapidamente para o rio. Ajoelhou-se na margem e inclinou-se sobre a água. O seu reflexo apareceu todo doirado de sol à tona do rio.
- Mas que bonita que eu sou! – disse Oriana. - Hoje ainda estou mais bonita do que ontem. Serei eu realmente tão bonita como me vejo na água?
Oriana olhou bem para os outros sítios do rio onde se refletiam as árvores. E pareceu-lhe que o reflexo das árvores no rio era mais bonito do que as próprias árvores.
- Se calhar – pensou ela – o meu reflexo é mais bonito do que eu! Como é que eu hei de saber a verdade?
Então lembrou-se do peixe e chamou-o:
- Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
O peixe apareceu e disse:
- Bom dia, Oriana. Aqui estou.
- Peixe, – disse a fada – preciso de ti. Quero saber se o meu reflexo no rio é mais bonito do que eu.
- Nada no mundo é tão bonito quanto tu – disse o peixe.
- Tu és muito mais bonita do que o teu reflexo. Tens os olhos mais brilhantes, o cabelo mais doirado, a boca mais vermelha.
- Achas que sim?! - perguntou Oriana. E ficou a cismar.
De repente teve uma idéia: Lembrou-se do espelho. Pensou:
- Vou ver o que diz o espelho – disse.
- Até logo, peixe.
E, rápida como uma seta, dirigiu-se a casa do Homem Muito Rico.
A janela estava aberta e a sala estava vazia.
Oriana entrou, disse bom dia às coisas e pôs-se em frente do espelho:
- Espelho – disse ela – olha-me bem, mostra-me como eu sou: vi o meu reflexo no rio e achei-me linda. Mas tenho medo de que o rio me tenha embelezado e lisonjeado como lisonjeia a paisagem. Mostra-me bem como eu sou para ver se o peixe disse a verdade e se eu ainda sou mais bonita do que o meu reflexo no rio.
- Oriana – disse o espelho -, sou, como já sabes, um espelho antiqüíssimo. Há séculos que todas as meninas querem saber se haverá no mundo alguém mais bonito do que elas. Vê-te bem. És muito bonita, mas há uma coisa muito mais bonita do que tu.
- O que é? - Perguntou Oriana, ansiosamente.
- Uma parede branca, nua e lisa.
- Não me fales mais nessa parede – disse Oriana, desconsolada. Mas depois olhou-se muito no espelho e disse:
- Eu acho-me linda.
- Ainda bem – disse o espelho. - mas não imaginas a quantidade de meninas que pelos séculos fora se olharem nos meus olhos de vidro e disseram: “Acho-me linda”!
- Então, adeus – disse a fada, um pouco zangada.
- Não te vás já embora. Quero-te pedir uma coisa.
- O que é?
- Tira outra vez o cabelo do Homem Muito Rico.
- Mas porque é que eu hei de fazer essa maldade?
- Porque ele passa o dia em frente de mim, a ver-se em mim e a dizer: “É um cabelo lindo”. E eu já não o posso olhar.
- nesta casa – disse Oriana – tudo dá mau resultado.
E foi-se embora.
Cá fora pensou:
- Nunca mais volto a essa casa: o espelho fez troça de mim. Aqui nada há que falte e tudo é irremediável.
E foi outra vez para o rio.
Sentou-se a beira da água e apareceu o peixe:
- Peixe – disse Oriana –, vi-me no espelho do Homem Muito Rico, e achei-me muito bonita, tão bonita como neste reflexo do rio. Mas o espelho disse-me que havia uma parede branca que era ainda mais bonita do que eu.
- os espelhos são uns sonhadores, estão sempre a imaginar o que não vêem. És muito mais bonita do que uma parede. Eu nunca vi ninguém tão bonito quanto tu. Mas acho que é uma pena andares tão mal penteada.
- Ah?! – disse Oriana, inquieta.
- Tens de mudar de penteado – disse o peixe. – Eu ensino-te!
E o peixe começou a ensinar:
- Faz riscas ao lado, puxa os caracóis Mara trás, puxa a onda da direita mais para frente, põe a onda da esquerda mais para trás e faz caracóis na nuca.
Oriana fez tudo o que o peixe disse, mas ele ainda não ficou contente. Mandou-a desmanchar o que tinha feito e recomeçar tudo outra vez. Oriana fez e refez ondas e caracóis. Até que começou a escurecer.
- Agora está melhor – disse o peixe. – Mas amanhã vamos experimentar outro penteado.
- Então até amanhã – disse Oriana.
E foi lentamente, cismando, pela floresta fora.
Era quase noite quando chegou à torre do Poeta. Senyou-se na beira da janela e perguntou;
- Achas que estou diferente?
- Não – disse o Poeta. – Acho que estás igual.
- Mas mudei de penteado.
- Não tinha reparado.
Oriana ficou calada, desconsolada com a resposta. O poeta pediu-lhe:
- Oriana, enche o ar de música.
Oriana tocou com a sua varinha de condão no ar e o ar encheu-se de música.
Estava lua cheia e o luar inundava tudo. Cheirava a madressilva e a rosas.
- Oriana – pediu o Poeta –, dança a dança da noite de hoje.
Então Oriana começou a dançar no ar, em pontas dos pés, a “Dança da Noite de Luar da primavera”.
Dançava como as flores dançam no vento, e os braços eram iguais ao correr dos rios.
O Poeta sentou-se na beira da janela a vê-la e do fundo da floresta vieram veados, os coelhos, as aves e as borboletas, para verem a dança da fada.
Até que o vento trouxe de longe o som das doze badaladas da meia noite. Oriana despediu-se do Poeta e desapareceu.
No dia seguinte, de manhã, Oriana, depois de levar a velha à cidade, foi correr a ajoelhar-se em frente do rio. O Peixe já estava à sua espera. Começaram logo a ensaiar penteados. O peixe mandou-a fazer uma coroa de flores, para por na cabeça. Oriana passou a manhã e a tarde a colher flores, a ver-se no rio e a ouvir os elogios do peixe. Esqueceu-se de ir à casa do moleiro e à casa do lenhador. Esqueceu-se de tomar conta dos animais. Esqueceu-se de regar as flores. Mas a noite foi visitar o Poeta.
E, daí em diante, Oriana foi abandonando um por um todos os homens, animais e plantas que viviam na floresta. Um dia abandonou também o Poeta. Foi porque numa tarde o peixe lhe disse:
- Vista à luz do Sol és linda, mas de noite vista a luz de uma chama, deves ser ainda mais bonita.
E nessa noite Oriana, em vez de ir visitar o poeta, encheu a margem do rio com pirilampos e fogoa-fátuos e passou a noite a ver-se na água.  
  
Foi uma noite maravilhosa. Parecia uma festa extraordinária e fantástica no meio do silêncio e da escuridão da floresta. Os fogos–fátuos e pirilampos eram iguais a estrelas pequeninas e Oriana via-se na água rodeada de luzes, de chamas e de sombras, com os seus olhos brilhantes, os seus cabelos luminosos, a sua coroa de lírios e as suas asas transparentes. 
E daí em diante nunca mais foi ver o Poeta. Esqueceu-se de todos os seus amigos. A única pessoa que ela continuava a visitar era a velha, porque sentia imensa pena quando a ouvia dizer que em tempos idos tinha sido nova e linda e agora era velha, enrugada e feia. Por isso, todas as manhãs lhe acendia o lume, lhe punha leite na caneca, café na lata, açúcar no açucareiro, pão com manteiga na gaveta e depois a guiava ao longo do caminho da cidade, para que ela não caísse nos abismos.
Mas mal voltava da cidade com a velha ia rapidamente para o rio, mirar a sua beleza e ouvir os elogios do seu admirador peixe.
E, durante a primavera, Oriana enfeitou-se com coroas e colares feitos de madressilva, margaridas, narcisos, flor de laranjeira, papoulas.
Depois no verão, Oriana enfeitou-se com cravos, rosas e lírios. E no outono enfeitou-se com folhas vermelhas de vinha, com dálias e crisântemos.
Mas quando chegou o inverno só havia violetas. E ao fim de algum tempo o peixe disse;
- Eu acho que o roxo das violetas diz muito bem com o branco da tua pele e o loiro do teu cabelo. Em todo caso há já dias e dias que não mudas de enfeites. Acho que devias variar.
- Como é que eu hei de variar? – respondeu Oriana. – Agora é inverno e não há flores na floresta.
O peixe pensou um bocado e disse:
- podias enfeitar-te com pérolas?
- Mas onde é que eu hei de buscar pérolas?
- Espera um instante – pediu-lhe o peixe.
E passado algum tempo voltou com um anel que deu à fada.
- Toma este anel.
Oriana pegou no anel e ele disse-lhe
- Põe o anel no teu dedo e voa até o mar. E quando chegares à orla das ondas chama pelo peixe Salomão, mostra-lhe o anel e pede-lhe que te traga mil pérolas do mar do Oriente.
Oriana assim fez.
Voou sobre as ondas e chamou:
- Peixe, peixe, peixe Salomão!
E apareceu um peixe preto e azul com os olhos vermelhos, e perguntou:
- Quem me chama?
- Sou eu, a fada Oriana. Trago-te este anel.
- Diz o que queres.
- Quero que me tragas mil pérolas do mar do Oriente.
- Senta-te naquele rochedo – respondeu o peixe Salomão – e espera que eu volte.
Oriana sentou-se no rochedo e esperou sete dias e sete noites. De vez em quando lembrava-se da velha, mas pensava:
“Com certeza que o peixe Salomão não se há de demorar. Ela nem vai dar pela minha falta. Conhece tão bem o caminho que, com certeza, não há de cair no abismo”.
Depois da sétima noite, o peixe apareceu ao romper do dia. Trazia uma grande casca de tartaruga que tinha lá dentro as mil pérolas.
- Obrigada, peixe Salomão – disse a fada.
E pegando na casca de tartaruga, voltou para a floresta.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Então é Natal...



Por Lourenço Augusto Oliveira

As crianças brincavam sob a árvore iluminada em seus troncos... O tronco principal forrado por uma manta branca de fibra brilhosa irradiava as luzes que vinham da gambiarra que o envolvia e, nas  folhagens,   luzes diversas  em cores diferentes  brilhavam como  frutos irradiantes.
Na pequena área de varanda a céu aberto, piscavam pequenas luzes  numa bambuia, moita de palmeira  que  ia desordenadamente  ao beiral do telhado, onde uma cachoeira de luzes derramava seu brilho, caindo  pela parede de pedra  natural, sobre o Papai Noel que descia com seu Helicoptero, e pela grade que formava um arco medieval.  Um  conjunto de estrelas brilhando encravadas nesta grade, ia mudando as cores num sincronismo  de pisca-pisca, e também nas luzes das plantas dos jarros  como se tivessem recebendo os pingos de luzes da cachoeira,    mostravam cores diferentes em cada uma delas, piscando, piscando, piscando...
Nas portas um Papai Noel num balancinho, um arranjo de Natal, e como moldura, um cordão verde iluminado,  por onde as crianças iam e vinham  por elas a dentro e  por elas a fora.
A Sala era onde ecoava a música “Então é Natal” na voz da cantora Simone e antes outras  Merry Christmas, que tocavam  da estante  desenhada com luzes, velas, anjos e Papai Noel em suas prateleiras, e elas sempre elas as  crianças giravam no centro  e pareciam se sentir  num mundo de Papai Noel, na Casa do Papai Noel!, admirando a Árvore de Natal  que ia até quase o Teto, com infinitas e diferentes luzes piscando junto  a laços, fitas, bolas e  neves de algodão.
Cada cantinho da casa mostrava o Natal... O Natal que vivemos com nossa mãe quando éramos crianças, numa decoração mais presente diferente da época do nosso presépio, da nossa árvores de bolas de vidro, mas que em nada mudou no espírito  que buscamos manter e que todos buscaram nestes Natais Maravilhosos que nossos filhos puderam  viver junto a nós.
Então ela chegava e todos que estavam sentados deixavam suas taças de vinho, e    se levantavam para  dar inicio à festa da nossa Matriarca. Quando as luzes se misturavam com a música cantada pela voz ecoante e doce de nossa mãe, recebíamos ali, naquele momento, o Espírito do Natal.
Após a ceia ela participava dos eventos promovidos pelos netos... Relembro como o auge destes Natais a Noite  onde Dany, Nathy e Vinicius ,  mostraram a ela  seus talentos ao tocarem músicas lindas no Órgão, no Violino e no Cavaquinho .
Cada pedacinho dessa Casa de Papai Noel era enfeitado pensando nela e  nas nossas crianças,  e a ideia do clima era assim sentida  quando todos chegavam e tudo começava.
Agora, como disse nosso irmão Silvio no bonito cartão que recebi dele, nossa mãe é mais uma das estrelas que brilham na Noite Estrelada de Natal, e as crianças adultas estão revivendo em suas casas esses natais brilhantes (algumas com seus filhos) e carregam dentro de si o clima de Natal  que essa mãe maravilhosa nos deu e juntos o repassam para suas crianças nestas noites de brilho e amor ao Natal, e a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Quando vemos nossa casa com as mesmas luzes, mas que brilham e piscam de forma diferente, fica para eu e Kacia a saudade de tudo, mas Deus nos trouxe Davi, trouxe a Rege Arthur e Joãozinho, a Leo  Leonelzinho, e também a Luiz novos filhos, Malu e Ana, e logo todos terão  mais e mais netos que certamente estarão  com seus filhos festejando este Natal, e que todos eles  possam continuar vivendo este momento único de família junto a Deus, lembrando na Noite de Natal  dela que nos deu esta família grande e maravilhosa e que foi a fundadora de todos estes Natais que estão vivendo hoje e que viverão.

    Feliz Natal meus irmãos! amo vocês!

Lourenço Augusto.

Aproveitando a carona desse texto de meu irmão Lourenço, desejo a todos um feliz Natal em 2012.

Regina Maria
   

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Halloween: A Lenda de Jack da Lanterna por Regina Maria Oliveira de Macedo


A LENDA DE JACK DA LANTERNA
(Por Regina Maria Oliveira de Macedo)

Há muito tempo atrás, acho que no ano 600 antes de Cristo, vivia na Gália um homem de nome Jack que era muito grosseiro com as pessoas. Jack não respeitava ninguém: Maltratava a esposa, os filhos, os amigos... Aliás, ele não tinha mais amigos, justamente por causa dessa forma grosseira com que os tratava. Jack fazia tantas coisas erradas, era tão sem escrúpulos que foi apelidado  de "Jack Miserável".
Um dia o Diabo estava olhando a terra através do fogo mágico do inferno e viu Jack. Ele viu Jack fazendo suas maldades e gostou muito dele. Todos os dias o Diabo tirava um tempo para se divertir com as maldades que Jack fazia. Decidiu que quando Jack morresse ele iria morar com ele no inferno, mas como Jack estava demorando muito de morrer e o diabo tinha muita pressa em ter sua companhia, decidiu ir até a Terra e traze-lo para o inferno de uma vez por todas.
Quando o Diabo chegou Jack estava em uma taberna sentado à mesa com o seu jeito grosseiro de sempre exigindo da taberneira que lhe desse uma garrafa de vinho.
O Diabo sentou-se à sua mesa e antes que Jack reclamasse alguma coisa foi logo dizendo numa voz tenebrosa:
̶  Jack...  Chegou sua hora... Vim para levar sua alma... Ela me pertence. Como você está demorando muito de morrer, eu vim reivindicá-la pessoalmente, pois não quero extravios... Você, Jack é um de meus súditos mais perfeito no que diz respeito ao mau. Não vou permitir que você se torne uma boa alma... Você me diverte muito... Quero você na minha casa, e já...
Jack se assustou, mas como sempre foi muito esperto para enganar as pessoas, e sendo da iguala do Diabo não se intimidou. Disse ao diabo:
̶  Mas o senhor veio muito cedo. Eu ainda não tomei nem um gole do vinho que acabei de pedir... Não, eu não estou pronto ainda. Se quiser me levar, vai ter que esperar eu tomar o melhor vinho da minha vida! E para não ficar aí sem fazer nada, eu o convido a saboreá-lo comigo. Afinal, com o calor que faz na sua casa, duvido que já tenha tomado algo tão bom.

O diabo se animou e aceitou o convite. O vinho era tão bom que uma única garrafa não foi suficiente aos dois. Tomaram várias garrafas até que o diabo reclamou que estava na hora de irem andando.
̶  Vamos embora, meu seguidor! A hora é chegada... Pague a conta e vamos...
Jack, que era muito finório, enfiou a mão no bolso para pegar o suposto dinheiro que o diabo acreditava que ele tinha. Sabe como é, não é mesmo? O Diabo não entra no pensamento dos homens e por isso não podia ler o que Jack estava tramando. Jack fez de conta que tomou um susto:
̶  Uai, cadê meu dinheiro? Parece que algum ladino o tirou de mim sem que percebesse... E agora? Como vou pagar essa conta?
̶  Ora mais... Hás de pagar como sempre fizestes, passando a perna na taberneira. – Disse calmamente o diabo que de maldade entendia muito bem, mas Jack retrucou dando um pulo:
̶  Isto é que não! Se tem uma coisa que nunca deixei de fazer foi de pagar a conta do vinho que bebo. Tá pensando que vou deixar essa gentalha pensar que é melhor que eu? Não, de jeito nenhum! Não saio daqui sem pagar minha conta! E começou a berrar.
O Diabo, temendo chamar atenção para sua pessoa começou a ficar nervoso. Perguntou a Jack:
̶  O que você propõe que se faça para resolver o problema?
Era tudo o que Jack queria escutar. Rapidamente apresentou a proposta:
̶  Você disse que é o diabo, pois não?
̶  Sim, eu sou o Diabo.
̶  Pois então... Você não é o todo poderoso que se transforma em qualquer coisa?
̶  Mas é claro que sim, – disse o Diabo todo orgulhoso. – E o que isto tem a ver com sua história de pagar a conta?
̶  Você se transforma em dinheiro. Eu pago a conta e depois você se encontra comigo lá fora.
O diabo pensou que Jack estava querendo fugir da taberna. Deu um sorrisinho maroto e disse para si mesmo:
“Esse esperto está pensando que pode fugir de mim. Vou fazer o que ele quer e quando ele menos esperar, eu me materializo ao lado dele”.
E foi em um ZUUUPPT XÁ!  Bem rápido que num milésimo de segundo o diabo se transformou em uma moeda de ouro sobre a mesa.
Mais que rápido que nunca, Jack apanhou a moeda. Contudo, ao invés de pagar a conta, ele a guardou em uma sacola para moedas que tinha um crucifixo gravado no couro. O Diabo ficou preso. Não podia mais sair do porta-moedas de Jack. Começou a implorar que o tirasse dali. Jack, esperto que só ele, propôs:
̶  Eu lhe tiro daí sim, mas só se você me prometer uma coisa...
̶  Diga logo o que quer. – Retrucou o diabo.
̶  Pois muito bem, eu quero que você me deixe em paz por um ano. Depois de um ano você vem me buscar. Eu ainda quero ficar por aqui um pouco mais.
É que Jack pensou que, se dentro de um ano ele se tornasse um homem bom, o diabo não ia mais querer levar ele. O Diabo, porém, tinha uma norma que não deixava de seguir: quem fizesse trato com ele tinha que cumprir. Muito esperto, o diabo perguntou a Jack:
̶  Quer dizer que se eu lhe deixar em paz por um ano, quando eu voltar para lhe buscar você promete que vai comigo sem reclamar?
̶  Prometo. – Disse Jack.
O Diabo tornou a perguntar:
̶  Quer dizer que você está fazendo um trato comigo de que se eu lhe deixar em paz por um ano você vai comigo quando eu vier lhe buscar?
̶  Sim é isso que eu estou dizendo.
O Diabo deu um risinho de canto de boca e respondeu a Jack:
̶  Pois então, Trato feito!
Jack respirou aliviado. Tirou a moeda de ouro que na verdade era o diabo em forma de moeda da carteira e colocou de volta ao tampo da mesa. O diabo voltou a sua forma e falou:
̶  Trato Feito, Jack! Daqui a um ano, no dia 31 de outubro, eu volto para lhe buscar.
E assim falando desapareceu numa nuvem de fumaça deixando um enorme cheiro de enxofre no ar.
Jack respirou aliviado. Não sabia ele que trato com o diabo não podia ser desfeito. Mesmo assim, tomou a decisão de ser uma pessoa melhor. Pagou a conta e saiu da Taberna em direção à casa.
A partir daquele dia Jack resolve mudar seu modo de agir e começa a tratar bem a esposa e os filhos, passou a ir à igreja e até mesmo a fazer caridade.
No entanto, Jack não estava satisfeito com sua nova vida. Afinal, ele gostava mesmo era de ser malvado, por isso sua mudança não durou muito tempo! Um belo dia ele se esqueceu do trato feito com o diabo e voltou a ser uma pessoa ruim. Por fim chegou novamente o dia 31 de outubro.
Jack estava indo para casa depois de uma noite de farra quando o Diabo apareceu. Jack levou um susto, mas esperto como ele só fez de conta que não se assustou.
̶  Bem vindo, diabo. Como você demorou!
O diabo se espantou com a atitude de Jack:
̶  Não me diga que estava ansioso que eu chegasse... – Disse o diabo desconfiado. Jack se apressou em explicar:
̶  Pois é, estava sim... É que a semana passada, quando vi essa macieira carregada, fiquei pensando em como deve ser bom assar maçãs lá no braseiro da sua casa...
O diabo sorriu... Olhou a macieira e pensou que seria uma novidade no inferno... Chegou a sentir o cheiro das maçãs assadas... Quando Jack viu o olhar sonhador do diabo e sua língua a passar sobre os lábios, lambendo-os, viu que o diabo iria cair na sua conversa. Botou seu plano em ação:
̶  É, seria bom... Pena que não vai poder ser... – Jack falou como quem estava pensativo, meio lamentando... e suspirou dizendo rápido:
̶  Bem, estou pronto, diabo. Pode me levar.
O diabo se espantou com a pressa e perguntou:
̶  E as maçãs assadas?
Jack viu que seu plano estava dando certo. Respondeu olhando a copa da macieira carregada, como quem estava desanimado e resignado:
̶  Deixa para lá... Não vai dá certo mesmo...
̶  Por que não vai dá? – Perguntou o diabo mais curioso ainda.
̶  Ora, eu não vou poder colher maçãs, pois não sei subir na macieira e você, com certeza, sendo o rei dos infernos, não vai querer subir nessa árvore para colher maçãs como um empregado qualquer. Portanto, vamos embora e que as maçãs fiquem aí.
Assim dizendo Jack convenceu o diabo a pegar umas maçãs da árvore para levar para assar no inferno. Quando o diabo subiu no primeiro galho, Jack pegou um canivete em seu bolso e desenhou uma cruz no tronco. Dessa forma o diabo ficou preso na árvore e não pode mais sair. Desesperado começou a implorar a Jack que o tirasse dali. Jack diz que não, pois não quer morrer ainda. O diabo, então, promete partir por mais dez anos.
Jack não aceitou a proposta. O diabo então lhe perguntou:
̶ O que, então, você quer para me tirar daqui?
Jack sorrir, maravilhado. Ele podia pedir tudo ao diabo naquele momento... Então ele determina:
̶  Eu  tiro você daí se você me prometer fazer de mim um homem muito rico e que nunca mais você virá aqui na terra para me aborrecer.
̶  Está bem, disse o Diabo já pensando em se mandar sem atender ao pedido de Jack, mas Jeck se lembrou das palavras dos contratos. O Diabo não disse "Trato Feito" disse "Está Bem" e ele sabia que bem, diabo não faz. 
̶  Está bem, não. Quero saber se o Trato está feito. Como é Diabo... Trato Feito?
O diabo perdeu a esperança de enganar Jack. Poderia até tentar outros truques, mas a Cruz que tinha na árvore já o estava transformando-o em uma árvore para sempre. Se demorasse mais um pouco nunca mais ele seria o Diabo outra vez. Não lhe restou outra alternativa senão fazer o trato.
̶  Trato Feito! Trato Feito! Me tire logo daqui.
Jack o liberta da árvore. Assim que se viu livre o diabo deu a Jack o prometido e foi-se embora danado da vida por ter se deixado enganar mais uma vez. Jurou, no entanto, que um dia Jack lhe pagaria por lhe ter feito de bobo.
O tempo foi passando e Jack ficou velho. Um dia ele pegou uma gripe muito forte e como continuava sendo uma pessoa muito malvada, não achou quem quisesse cuidar dele. Resultado: Jack foi piorando... Piorando... Até que um dia ele morreu.
Sua alma saiu do seu corpo e voou até a porta do Céu. Chegando lá, Deus lhe disse que não podia ficar no céu, pois lá só podia entrar quem tinha sido uma boa pessoa na Terra. Jack tentou até enganar a Deus, mas acontece que Deus sabe tudo o que se passa no coração do homem e também na sua mente e assim, Jack não conseguiu entrar no Céu.
Sem outra alternativa ele foi para o inferno. Mas o Diabo quando o viu, lhe falou:
̶  Ah, não! Aqui você não entra. Você me enganou duas vezes; não vai me enganar pela terceira vez. Pode ir embora daqui.
Jack olhou em volta e não viu nada. Tudo era apenas uma enorme escuridão. Ficou apavorado. O inferno era quente, mas ele pelo menos já conhecia o Diabo... Se nem o Diabo o queria, o que iria fazer? Começou a chorar. Para sua surpresa, o Diabo jogou para ele uma brasa dizendo:
̶  Não sou tão ruim como você, Jack. Tome essa brasa em consideração aos divertimentos que você me proporcionou quando lhe acompanhei na terra através do meu fogo mágico. Com ela, ilumine seus caminhos quando caminhar pelo limbo, rá, rá, rá, rá... Tome cuidado, pois se ela se apagar você ficará no escuro para sempre. – E assim dizendo, deu mais uma gargalhada infernal e fechou a porta do inferno.
Jack olhou a brasa e viu que ela começava a se apagar. Desesperado, olhou em volta e viu um nabo oco no chão. Apanhou o nabo e colocou a brasa dentro dele para que durasse mais e saiu perambulando pela escuridão.
Andou, andou e muito tempo se passou até que um dia ele encontrou uma bruxa que estava morrendo de frio. 
A bruxa tinha vindo dos Estados Unidos e carregava uma abóbora. Sua intensão era plantar as sementes pois sabia que as abóboras simbolizavam fertilidade e sabedoria, mas quando passou pelo limbo, não suportou o frio. Para sorte dela, nesse dia Jack tinha aprendido a ser um pouco melhor. Ele se sentia muito só... 
Sentou-se perto da bruxa, colocou as mãos dela em volta do nabo onde estava a brasa e a ajudou se aquecer com o calor que emanava dele.
A bruxa recuperou suas forças e para agradecer a Jack deu um jeito para que a brasa do nabo nunca se apagasse: pegou sua abóbora, retirou os caroços, desenhou olhos, nariz e uma boca sorridente. 
Em seguida fez um corte nesses desenhos de forma a abrir buracos como se a abóbora fosse uma cara. Colocou a brasa dentro dela, recolocou a tampa por onde tinha retirado as sementes, amarrou uma corda  de um lado e outro da abóbora, de forma a fazer uma alça, e a entregou a Jack dizendo-lhe:
̶  Não posso lhe tirar daqui, pois você contrariou até o diabo e não sou boba de chatear alguém tão poderoso quanto ele. Assuntei que foi o próprio diabo quem lhe deu essa brasa... Por isso coloquei ela dentro dessa abóbora onde esculpi essa cara. Aqui dentro essa brasa não vai apagar nunca mais e quando chegar o dia 31 de outubro, único dia em que os mortos poderão visitar a terra, você coloca a abóbora na cabeça e usa essas correntes com essa lanterna. 
A abóbora vai lhe esconder  e o fogo não vai lhe queimar pois nesse dia, assim que você colocar a abóbora na cabeça, ele vai parar dentro da lanterna que as correntes têm na ponta. Assim disfarçado, você vai poder dar uma voltinha lá.  O diabo não vai saber que você saiu do Limbo. Agora não se esqueça, você só poderá fazer essa transformação e ir à Terra no dia 31 de outubro que é o dia do Halloween. Volte antes de clarear o Dia de Todos os Santos. 



Depois dessa conversa a bruxa montou em sua vassoura e foi embora. Jack ficou lá, caminhando na escuridão que agora estava bem mais iluminada, graças à abóbora da bruxa. 




Nesse dia ele decidiu que todo dia 31 iria à terra e quando visitasse as pessoas ele lhes perguntaria:
̶  Durante o ano você fez doces, ou fez travessuras?
Se as pessoas lhes dessem doces ele saberia que elas não fizeram travessuras e na casa dessas pessoas haveria paz e harmonia, mas se as pessoas não tivessem doces para lhe dar, Jack saberia que não foram boas, pois pessoas boas sempre têm algum doce em casa para oferecer às visitas. Então na casa que não tinha doces haveria muita atrapalhação até o dia em que Jack voltasse, para saber se a pessoa fez doces ou travessuras, outra vez.






Fim