quinta-feira, 11 de julho de 2013

A FADA ORIANA - XII. A ÁRVORE E OS ANIMAIS

XII. A ÁRVORE E OS ANIMAIS

Quando lá chegou nascia o dia. A madrugada estava branca de névoa. Era a hora em que os pássaros acordam e começam a cantar. Mas os pássaros tinham fugido para os montes e ninguém cantava.
- Que silêncio! Que silêncio! – murmurava Oriana. – Vê-se bem que os meus amigos pássaros fugiram. Ai como eu estou sozinha!
Ai como eu estou cansada! Não sei para onde hei de ir e não posso dar mais um passo.
E dizendo isto Oriana encostou a cabeça ao tronco de uma árvore e começou a chorar.
Era um tronco forte, áspero, negro. E Oriana rodeou-o com os seus braços e colou a cara à casca rugosa. Então a árvore baixou-se e, com os seus ramos, pegou nela ao colo. Cobriu-a com a sua folhagem e pôs duas folhas sobre os seus olhos. E
Oriana adormeceu.
Era manhã alta quando acordou. Mil raios de sol atravessavam a floresta. Oriana viu o céu azul através das folhas verdes.
Espreguiçou-se, respirando fundo os perfumes da terra.
Sentiu-se cheia de alegria por tudo ser tão bonito.
E disse:
- Que linda manhã!
Mas de repente lembrou-se do dia da véspera. Lembrou-se do lenhador, da moleira e do Poeta.
Pensou:
“Tenho de encontrar um remédio. Com certeza que há um remédio.
Tem de haver um remédio. Mas o que é que hei-de fazer?”
E, pondo o cotovelo no joelho e o queixo na mão, Oriana pôs-se a pensar. Até que exclamou:
- Vou procurar o filho do moleiro. Os animais que foram para os montes devem saber onde ele está. Vou pedir que me digam como é que o hei-de encontrar. E vou-lhes pedir também que venham comigo à cidade ajudar-me a soltar o lenhador. E talvez que a raposa, que é tão inteligente, consiga convencer o Poeta de que eu sou uma fada.
E, radiante com a sua ideia, Oriana faz um passo de dança.
Depois voltou-se para a árvore e disse:
- Obrigada, árvore. Apesar de eu já não ter asas, tu viste que eu era uma fada. Quanto eu cheguei ao pé de ti vinha triste e cansada, mas tu deste-me a tua paz e cobriste-me com as tuas folhas. E agora eu vou procurar o filho do moleiro. Ontem eu chorava e julgava que não podia salvar os meus amigos e que não havia remédio para a minha tristeza. Mas tu cobriste os meus olhos com as tuas folhas e enquanto eu dormia a minha tristeza desfez-se.
Esta manhã é tão verde e tão azul! E eu estou tão contente porque tenho a certeza de que há um remédio!
Oriana despediu-se da árvore e foi a caminho dos montes.
Os montes eram longe e estavam todos azuis.
Oriana andou, andou.
E pensava:
- Que difícil que é a vida dos homens, porque não têm asas!
E andou, andou, andou.
Ao pôr do Sol os montes ficaram escuros contra o céu vermelho.
E veio a noite e o luar caiu sobre os campos.
Oriana procurou uma árvore para dormir, porque as fadas só podem dormir nas árvores.
E encontrou um pinheiro.
Durante a noite o pinheiro dizia:
- Quando passa o vento imagino que sou um mastro.
Logo de madrugada Oriana pôs-se a caminho.
Chegou ao alto dos montes e chamou todos os animais.
E disse-lhes:
- Sou a fada Oriana.
Eles disseram:
- Mas onde é que estão as tuas asas e a tua varinha de condão?
Oriana contou-lhes a sua história e perguntou:
- Sabem onde é que está o filho do moleiro? - Está aqui disse o veado, que apareceu detrás de um penedo com o filho do moleiro às costas.
- Damo, - disse Oriana - eu quero levá-lo à mãe dele.
- Uma fada sem asas - disse o veado - é uma coisa muito esquisita.
Não te posso entregar uma criança, porque uma criança é uma coisa sagrada. Não posso entregar uma criança a quem diz que é uma fada, mas não pode mostrar as suas asas.
- Eu sou uma fada, - disse Oriana - mas não posso provar que sou uma fada.
- Apresenta testemunhas – disse o coelho.
- De qualquer maneira – disse a raposa – não podemos ter confiança nela. Por um lado, não tem asas e por isso não parece uma fada. Por outro lado, mesmo que seja a fada Oriana, não podemos ter confiança nela. Porque a fada Oriana abandonou-nos, faltou à sua promessa e atraiçoou a sua palavra.
- Eu faltei à minha promessa, mas estou muito arrependida disse Oriana. – Há três dias que estou sempre a chorar.
- Apresenta uma testemunha – disse o veado.
- O peixe – disse a fada – assistiu a tudo. Ele é que teve a culpa de eu me ter esquecido dos homens, dos animais e das plantas que vivem na floresta. Ele viu a Rainha das Fadas levantar a mão no ar e ouviu-a dizer que eu ia perder as minhas asas. Ele viu o vento que levou as minhas asas!
- Se o peixe disser que viu as tuas asas desaparecerem, levadas pelo vento, e que foi a Rainha das Fadas que te castigou, e que tu és a fada Oriana, nós acreditamos em ti – disse o porco-espinho.
- E se todos acreditarem em ti – disse o veado – eu entrego-te o filho do moleiro para o levares à mãe dele.
- Vou procurar o peixe – disse Oriana. – Amanhã ao meio-dia venham ter comigo à beira do rio.
- Amanhã - disseram todos os animais - vamos ter contigo à beira do rio.
- Até amanhã – disse Oriana.
E pôs-se outra vez a caminho.
Andou, andou, andou.
E no dia seguinte, mal nasceu o dia, Oriana estava debruçada sobre o rio, chamando:
- Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
Apareceu o peixe.
- Bom dia, Oriana - disse ele, com ar mal disposto. - Estás muito mal penteada.
- Não tenho tempo para me pentear – disse Oriana.
- Há coisas muito mais importantes do que estar bem penteada. Tenho de salvar todos os homens, os animais e as plantas que vivem na floresta. Tenho de desfazer o mal que fiz. Eu vi a tristeza da mulher do moleiro, e vi a miséria do lenhador, e a solidão do Poeta. Quero tornar a ser boa. Quero ajudar os outros. Diz aos animais que tu sabes que eu sou uma fada.
- Oriana, – respondeu o peixe – eu sou muito teu amigo, mas realmente não posso deixar de ter respeito pela Rainha das
Fadas. A Rainha das Fadas está muito zangada contigo porque tu te portaste muito mal.
- Foi tua a culpa – disse Oriana.
- Perdão, – disse o peixe – não foi minha a culpa. Eu não sabia que tu tinhas feito uma promessa de tomar conta dos homens, dos animais e das plantas que vivem na floresta. Não tenho nada a ver com o assunto.
- Não vale a pena discutir – disse Oriana. – Só te quero pedir isto: como eu não tenho asas, os animais não acreditam que eu seja uma fada. Dizem que as fadas têm sempre asas. Eu quero que tu lhes digas que viste a Rainha das Fadas tirar-me as asas e que sabes que eu sou a fada Oriana.
- Está claro – disse o peixe – que eu sei que tu és a fada Oriana. Mas essa história dos animais não me diz respeito.
- Peixe, – disse Oriana – no dia em que eu te salvei tu disseste:
“Quando quiseres vem ao rio e chama por mim. Pede-me tudo quanto quiseres.” E por isso agora eu peço: diz aos animais que eu sou a fada Oriana.
- Sabes, – disse o peixe – quando uma pessoa nos atira à cara o favor que nos fez perde o direito à nossa gratidão.
Oriana ficou muito corada, sem saber o que havia de responder.
Apeteceu-lhe cuspir naquele peixe importante e covarde. Mas lembrou-se do lenhador, que estava na prisão, da mulher do moleiro, que não sabia do filho, e do Poeta, que já não acreditava em fadas. E resolveu ter paciência. Disse:
- Peixe, eu peço-te que digas aos animais que eu sou a fada Oriana.
- Está bem - disse o peixe. - Eu não quero ser ingrato. Quando chegarem os animais, chama por mim.
- Obrigada, obrigada, obrigada! – disse Oriana.
- Até já - disse o peixe, com um ar cerimonioso e bem-educado.
E desapareceu.
Oriana pôs-se à espera dos animais. O Sol foi subindo no céu.
Até que chegou o meio-dia. E ao meio-dia apareceram os animais.
Vinham todos em bicha, com um ar muito sério. À frente vinha o lobo. No fim vinha o veado, que trazia às costas o filho do moleiro.
- Bom dia – disse Oriana.
- Bom dia - responderam os animais. – Onde está a tua testemunha?
- Vem já – disse a fada. – Está à espera do meu chamamento.
E, ajoelhando-se à beira do rio, Oriana chamou:
- Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
O peixe não apareceu.
Oriana tornou a chamar:
- Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
E o peixe não apareceu.
- Então o peixe? – perguntaram os animais.
- Ainda não teve tempo de chegar – respondeu a fada.
E tornou a chamar:
- Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
Mas o peixe não apareceu.
- Está atrasado – disse Oriana.
- Muito – disse o porco, que era pontualíssimo, - já passa do meio-dia.
- Vamos esperar – disse o veado.
E puseram-se à espera.
De vez em quando Oriana chamava:
- Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
Mas o peixe não aparecia.
O Sol começou a passar para o outro lado do rio.
Os animais começaram a zangar-se. Oriana estava aflita e envergonhada.
- Afinal o peixe não aparece? – perguntou um coelho.
- Não aparece – concluíram todos.
- Deve ter-lhe acontecido alguma coisa – disse Oriana
- ele prometeu que vinha servir de minha testemunha.
- Mas não veio – disse a raposa.
Oriana começou a chorar e disse:
- Talvez alguém o tenha pescado.
Alguns animais começaram a rir, outros zangaram-se.
- Disseste que o peixe vinha ser tua testemunha, e o peixe não apareceu - gritou-lhe o lobo.
- Disseste que eras uma fada e não tens asas – resmungou o porco.
- E também não tens varinha de condão – acrescentou a raposa.
- Não tem testemunha, e não é fada - gritaram os animais todos. – Vamos embora.
- Eu sou uma fada – disse Oriana.
- Mentes! – gritaram os animais.
- Não minto – disse Oriana.
E voltando-se para o veado, com a cara cheia de lágrimas, Oriana pediu:
- Dá-me o filho do moleiro! Acredita em mim. Eu sou uma fada.
- Não – respondeu o veado. – Eu não acredito em ti.
- Vamos embora – disse o lobo.
Oriana ficou sozinha. E chorando, dizia:
- Peixe, peixe, peixe covarde! Passaste dias e dias a dizer-me que eu era linda e agora eu chamo por ti e não apareces. Peixe ingrato, mentiroso e covarde! Salvei-te a vida e agora não me ajudas. Estou sozinha, sozinha! Quem há-me de ajudar!
Então ouviu atrás de si um barulho. Calou-se e escutou. E uma voz doce, meiga e ondulada chamou:
- Oriana.
Oriana voltou-se e viu ao seu lado uma fada muito bonita, que a olhava sorrindo. Os seus olhos eram pretos e brilhantes, os seus cabelos eram iguais a serpentes azuis-escuras, as suas asas eram de mil cores, como as asas das borboletas. E trazia na mão esquerda outras duas asas.
- Oriana, – disse ela – queres tornar a ter asas?
- Quero, quero – disse Oriana.
- Estas asas que trago na minha mão esquerda são para ti.
- Para mim? - repetiu Oriana, que nem acreditava no que ouvia.
- Sim.
- Dá-me as depressa, depressa! – pediu Oriana, tremendo.
- Primeiro tens de fazer uma promessa.
- Que promessa? – perguntou Oriana.
Então a fada de cabelos pretos sorriu e disse:
- Eu sou a Rainha das Fadas Más. Se queres que eu te dê estas asas, tens de prometer que de hoje em diante passarás a cumprir as minhas ordens.
- E quais são as tuas ordens? – perguntou Oriana
- As minhas ordens – disse a Rainha das Fadas Más – são estas:
“Sujar a água das fontes”.
“Pôr teias de aranha em cima das flores”.
“Fazer secar as sementes que estão na terra a germinar”.
“Roubar a voz dos rouxinóis”. “Azedar o vinho”.
“Roubar o dinheiro dos pobres”. “Empurrar as crianças”. “Apagar o lume dos velhos”. “Roubar o perfume das rosas”. “Atormentar os animais”. “Desencantar o mundo.”
- Não! Não! Não! - disse Oriana, recuando com horror.
- Eu não quero fazer essas coisas.
- Se não prometes fazer estas coisas, não te dou estas asas disse a fada dos cabelos pretos.
- Antes quero não ter asas.
- Sem asas não podes ser uma fada.
- Antes quero não ser uma fada.
- Pensa bem, Oriana: estas asas têm mil cores, como as das borboletas, e com elas poderás voar no ar, em vez de andares com tanto custo, passo a passo, sobre a terra, rasgando os teus pés nas pedras dos caminhos.
- Antes quero ser boa – disse Oriana. - Quero ser boa, mesmo que por isso não possa ter asas.
- Que pena que eu tenho de ti, Oriana! – disse, rindo, a fada má. – Tu fazes tudo de pernas para o ar: primeiro perdeste as tuas asas por causa dos elogios de um peixe. E agora eu trago-te duas asas iguais às das borboletas e tu não as queres. Tenho dó de ti, Oriana: és tonta e pateta e não sabes escolher.
E a fada dos cabelos pretos desapareceu a rir.
Oriana ficou sozinha e pensava:
- Nunca, nunca mais terei asas. Porque me enganei, perdi as minhas asas azuis. Porque não quis ser má, perdi as asas iguais às asas das borboletas. Agora é como se eu não fosse uma fada. Ninguém nunca mais acreditará que sou uma fada. Talvez eu própria até me esqueça de que sou uma fada. Tenho de viver como se fosse uma rapariga como as outras. Nunca mais poderei voar por cima dos caminhos cheios de pedras. Tenho de caminhar passo a passo pelos caminhos cheios de pedras, como as outras raparigas. Mas posso, ao menos, ser boa. Posso ir para a cidade e ajudar os outros. Tenho de ir para a cidade, porque é lá que a vida dos homens é mais difícil.

E Oriana pôs-se a caminho da cidade.

A FADA ORIANA - XIII. O ABISMO (ÚLTIMO CAPÍTULO)


XIII - O ABISMO - (ultimo capitulo)

Andou, andou, e quando ia já quase a meio caminho viu ao longe um vulto que vinha da cidade avançando ao seu encontro. Era um vulto escuro, todo curvado, que caminhava devagar, encostado a um pau. Oriana percebeu logo que era a velha. E pensou:
- Coitada da velha! Eu nunca mais a vim ajudar e ela, quase cega, anda sozinha por este caminho tão perigoso ao lado do abismo. De hoje em diante vou tornar a guiá-la todos os dias, como antigamente.
E apressou o passo para chegar mais depressa ao pé da sua amiga.
Mas de repente Oriana deu um grito. Porque viu a velha enganar-se na direção, e começar a caminhar para o abismo.
- Ai! – disse a fada – ela vai cair no abismo!
Gritou:
- Pára! Pára!
E começou a correr. Oriana estava muito longe da velha e a velha estava muito perto do abismo. Mas a velha andava muito devagar e Oriana corria muito depressa. Corria, corria. E gritava:
- Pára! Pára!
Mas a velha era surda e catracega e, sem ver nem ouvir, caminhava devagarinho.
- Se eu tivesse asas já lá estava! – pensava Oriana.
E corria, corria. A certa altura a velha parou para descansar. Estava a um passo do abismo. Oriana, a dez passos dela, pensou:
- Ainda chego a tempo!
Mas quando Oriana já estendia o seu braço para a agarrar a velha deu um passo em frente e caiu no abismo.
- Ai! - gritou Oriana.
E esquecendo-se de que não tinha asas, saltou no abismo, para salvar a velha.
Conseguiu apanhá-la pelas pernas e depois quis voar, mas não pôde. E lembrou-se de que não tinha asas.
- Ai de nós! – disse ela.
Viu debaixo de si o fundo abismo aberto como uma enorme boca que a ia devorar.
- Ai, ai, ai! – gritava a velha.
E caíam, caíam.
Mas de súbito, como um relâmpago, apareceu no ar a Rainha das Fadas. Estendendo o seu braço, ela tocou em Oriana com a sua varinha de condão.
E no mesmo instante Oriana parou de cair e ficou imóvel, suspensa no ar, segurando a velha.
E a voz alta e direita disse:
- Oriana, cumpriste hoje a tua promessa. Para salvar a velha, esquecendo-te de ti, saltaste no abismo. E o teu dó pela tua amiga foi tão grande que nem te lembraste de ter medo. Porque tu és a fada Oriana a quem foram entregues as plantas, os animais e os homens da floresta. E és tu que os guardas para que eles possam viver em paz. Quando tu os abandonaste, os animais fugiram para os montes, as flores secaram e os homens foram para a cidade, onde se perderam nas ruas cruzadas. Mas hoje tu cumpriste a tua promessa. Por isso eu ordeno que de novo nasçam duas asas nos teus ombros.
E dizendo isto, a Rainha das Fadas fez um gesto no ar com a mão direita.
E logo nos ombros de Oriana apareceram outras asas.
- Asas, asas, ai, minhas asas! - gritou Oriana, tremendo de alegria.
E dando-lhe a sua varinha de condão, a Rainha das Fadas disse-lhe:
- Toma esta varinha de condão e não esqueças nunca mais a tua promessa!
E mal acabou de falar, a Rainha das Fadas, como um relâmpago, desapareceu.
Então Oriana voou com a velha até ao caminho e, pousando-a no chão, guiou-a até à floresta.
Tonta de susto, a velha olhava à sua roda e dizia:
- Ai, parece que voltaram as fadas!
Mas Oriana já tinha desaparecido, pois, rápida como uma seta, voava para os montes.
Quando ali chegou, chamou o veado, o lobo, a raposa, o porco-espinho e os coelhos e pediu-lhes o filho do moleiro.
Os animais viram que ela era uma fada com asas e varinha de condão e entregaram-lhe a criança.
Oriana tomou-a nos braços e voou muito alto, por cima das nuvens, até à cidade.
E quando viu a rua onde morava agora o moleiro, desceu do ar e bateu à porta da casa. A porta abriu-se e apareceu a moleira, que deu um grito ao ver o seu filho ao colo de uma fada.
- Está aqui o teu filho que tinhas perdido – disse Oriana.
- Agora – disse a moleira – vejo que és uma fada. Amanhã voltaremos todos para a floresta.
E Oriana foi à prisão. Com a sua varinha de encantar adormeceu os guardas, abriu as grades e soltou o lenhador.
E nesse mesmo dia o lenhador, a mulher e o filho voltaram para a floresta.
E quando chegou a noite, Oriana entrou no café. O criado dormia, encostado ao balcão; os quatro homens conversavam de costas para a sala. Na mesa do fundo, pálido e sozinho, estava o Poeta.
Oriana atravessou o café, sem que ninguém a visse. Parou em frente do Poeta e tocou-lhe ao de leve na mão.
Ele levantou a cabeça e viu-a. Viu as suas asas e a sua varinha de condão. E viu que ela estava em pé no ar, sem que os seus pés tocassem no chão.
- Sou eu – disse ela.
- Agora vejo que és tu. Agora vejo que és uma fada. Obrigado, Oriana, porque tu voltaste.
Oriana deu-lhe a mão e, sem que ninguém os visse, saíram do café. Atravessaram a cidade e as suas ruas cruzadas com anúncios luminosos. Atravessaram as praças, as avenidas e os cais. E saíram da cidade.
Foram pelo caminho ao longo do abismo até à floresta. A lua cheia iluminava os montes e os campos.
Quando chegaram à floresta, o Poeta pediu:
- Oriana, encanta tudo.

E Oriana levantou a sua varinha de condão e tudo ficou encantado.

sábado, 6 de julho de 2013

ILHA DE ITAPARICA, PEDRA QUE ROLA.

                  ILHA DE ITAPARICA, PEDRA QUE ROLA.
(Regina Maria Oliveira de Macedo)

─ “ITAPARICA, é Pedra que Rola”!
Foi o que disse um dia avó Maria quando falava a seus netos sobre significado dos nomes Tupis-guaranis.
Não creio está correto, mas na sua simplicidade dizia ser meio índia, meio negra e meio branca, enfim bem brasileira!
Segundo ela, aprendeu com a sua avó, da sua parte indígena, que Itapuã significa Pedra que Ronca, Itaigara, Pedra que Canta e Itaparica, Pedra que Rola. E, contrariando a todos os dicionários da Língua Tupi-guarani,  seja Itaparica “Pedra que Rola”. E diga-se: Pedra Preciosa que rola no meio da Baía de Todos os Santos, despertando desejos e amores em todos que a conhecem.

Primeiro polo turístico da Bahia, durante muitos anos encantou a todos que a visitavam.
Com o tempo veio o Ferry Boat abrindo uma cicatriz em sua face. Os navios Maragogipe, João das Botas e outros barcos que aportavam na contra costa trazendo alegres visitantes até os Hotéis Icaraí, Grande Hotel e outros foram tirados da Ilha.
As dificuldades de acesso à preciosa Fonte da Bica transformaram Itaparica numa cidade silenciosa, sem tantos movimentos, sem tantas “badalações”.

Os jovens que a frequentavam a época tornaram-se adultos e passaram a buscar outras praias. Passaram a buscar e a criar grandes empreendimentos no Litoral Norte da Bahia.

Ao Sul da Bahia, Porto Seguro abraçou os sulistas e Itaparica, graças às dificuldades de acesso, foi caindo no esquecimento... Mas quem chega ao Mercado Modelo ou ao Solar do Unhão e até mesmo ao Porto da Barra, quando vasculha com o olhar aquele mar azul depara-se com a preciosidade abandonada na velha baía e indaga: “Como ir até lá?”


Poucos sabem do encanto das lanchas que param na costa da Ilha de Itaparica. Ao buscarem agências de viagem recebem um pacote de roteiro de ilhas a visitarem. Visitarem? Eu diria tomarem banho de mar em ilhas porque realmente não há tempo para uma visita que os levem a conhecer as ilhas e não há tempo para conhecerem Itaparica.
Seria preciso, pelo menos três dias, para conhecer “Pedra que Rola”. Pontos como: Moinho dos Jesuítas, Pedra da Baleia, Igreja de Santo Antônio dos Velasques, Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Igreja do Senhor da Vera Cruz, Igreja de Santo Amaro de Jiribatuba, O Pantanal Baiano, A Ilha das Canas, A Ilha do Medo, A Ponta dos Garcês, A Barra Falsa e seu magnífico banco de areia que nos faz sentir em outro planeta, O Forno das Caieiras, O Tracking na Mata da Ponta de My Friend, as belas Caramuãs, a Ilha do Amor, O Calado, O Poço dos Jesuítas, O Parque de Venceslau e tantos outros lugares maravilhosos não se visita numa paradinha de algumas horas nos restaurantes de Ponta de Areia.

Perceber a Ilha é preciso ir além de sentir os novos ares que amorosamente envolvem os barcos ao passarem da ponta de Monte Serrat, é preciso ir além de colocar o pé no chão, pescar siris munidos de um jereré e deixar-se bronzear com os raios abençoados do sol itaparicano.
Para conhecer e sentir a Ilha é preciso estar na Marina de Itaparica para ver o Por do Sol e correr até Porto Sobrado para assistir ao nascimento da Lua. É preciso orar e reverenciar nos templos mágicos existentes. É preciso não apenas tomar a água da Fonte da Bica, mas também saborear aquela água doce, maravilhosa que brota nas areias da praia de Catu.

Na Ilha há segredos, há magia, há amor... Há algo tão maravilhoso que cala no fundo d’alma e não se encontra palavras para definir...

Por não ser de ou para qualquer um, a ilha continua existindo (apesar dos altos investimentos no Litoral Norte) bela, amorosa, pedra preciosa... Rolando... Rolando...  na mente, na vida, na alma das gentes que se permitiram realmente vivenciá-la.



Vera Cruz, Ilha de Itaparica, 20 de junho de 2002. 
   

sexta-feira, 28 de junho de 2013

VIVENDO EXPERIÊNCIAS NA ARGENTINA




1.   INTRODUÇÃO
Bem, de volta a Argentina e pronta para mais 15 dias de aprendizado na Universidad del Salvador e com a linda e bela Buenos Aires.
Sim, linda e bela Buenos Aires... Desde que cheguei a essa cidade e contemplei a beleza de seus edifícios e a beleza de seus parques, fiquei a me perguntar o que alguns argentinos vão fazer no Brasil. A cidade de Buenos Aires é uma cidade bem cuidada de ruas limpas, praças bem cuidadas, e uma arquitetura de fazer sonhar com um tempo de música, amor, beleza e muito respeito. Além do mais o povo é prestativo e alegre.
Mas voltemos para o ponto que levou um grupo de brasileiros a participar de um curso de mestrado tão longe de casa...
No Brasil o acesso ao curso de mestrado é muito difícil. Muitos brasileiros se escrevem para fazerem esse curso, mas só aqueles que participaram de cursos como alunos ouvintes e que, de alguma forma conseguiram uma aproximação com os professores realmente conseguem romper as barreiras de acesso e adentrarem ao círculo dos mestrandos. Assim, de gastos em gastos investidos para conseguir acessar esse campo e conseguirem não apenas uma especialização mais aprofundada nos conhecimentos que já possuem e também novos conhecimentos, alguns brasileiros desistem.
Fazendo parte desse grupo que desiste, ou desistiu de tentar um mestrado no Brasil, mais especificamente no Estado da Bahia, foi que a oportunidade de conseguir o título de mestre na Argentina foi abraçada com todas as forças e sacrifícios.
Passado o primeiro encontro presencial com os mestres e doutores argentinos em janeiro, em junho estava de volta para o segundo encontro, ou seminário, com novos mestres e doutores.
Precisamente em 25 de junho do ano de 2012, às oito horas, teve início a aula de Epistemologia da Educação, com o Professor, Doutor Luís María Etchevery que de início levou todos a uma jornada de questionamentos sobre o significado da educação e o  para que da educação nessa sociedade.
Depois de minutos belos em que foi sentido o azeitamento de um cérebro que parecia haver se esquecido de pensar sobre a profundidade de certos assuntos, outros questionamentos se fizeram ouvir e aconteceu o mergulhar silencioso em um mundo onde tudo existia à volta do ser, mas pouco se tinha olhado e experimentado desse tudo que aí estava.
Veio o intervalo do almoço e ao retornar do grupo o Professor-Doutor brinda a todos com o texto “Que Significa Pensar”.
Após o texto, calma e serenamente as ações e palavras do professor foram atiçando o grupo para pensar. Às vezes pareciam que vapores emergiam dos cérebros e se espalhavam no ar.
Se iniciou um novo posicionamento com relação à forma de encarar conceitos.

2.  EXPERIÊNCIAS PROPOSTAS PARA CONHECER

Nesse dia mesmo o Professor-Doutor propôs o vivenciar de experiências e apresentou uma lista de sugestões para conhecer. Dentre elas uma chamou atenção. Não porque fosse a primeira no topo da lista, mas por sua escrita lembrar outra palavra da língua portuguesa-Brasil que tem um significado de Casa de prostituição; BORDEL; CABARÉ; LUPANAR; PROSTÍBULO.
Claro que na Argentina essa palavra não deveria significar “PUTEIRO”. Deveria significar outra coisa e o primeiro movimento foi questionar ao professor o que era.
Ingênuos brasileiros; claro que o professor não iria responder, se não qual a graça da experiência? A partir daquele instante um turbilhão de questionamento tomou conta do espírito e aquela palavrinha abriu um misto de curiosidade, alegria, medo e desejo de investigar.
Primeiro caminho? Ora perguntar à internet. Ah, maravilhosa internet onde quase todas as perguntas encontram uma resposta... Lá estava: “Puchero é um tipo de ensopado preparado na Argentina, Uruguai e Espanha, especificamente na região da Andaluzia e Ilhas Canárias”[1].
Como a vivência começou a partir das primeiras sensações iniciadas ao visualizar a palavra escrita, mais uma vez uma parada para examinar os sentimentos a partir do significado da palavra, em alguém que nunca havia escutado essa palavra antes, e que pensou em um significado misterioso, desconhecido e num significado possível conhecido e que agora tinha a revelação de um significado real, na relacionado a força de um puxar, ou a uma casa de prostituição.
Que sentimentos foram aflorados depois da descoberta do significado da palavra PUCHERO? Para responder a essa questão foi preciso parar e pensar no movimento do sangue no corpo, no movimento da respiração, no sentimento da aventura, no planejamento prévio de uma estratégia, nas proibições de uma educação severa, na disposição ao risco da aventura, no que acontecia naquele momento, naquele agora da descoberta da apresentação daquela representação prévia. Que se passa?
Um turbilhão de sentimentos ao mesmo tempo e de repente um sorriso... Um sorriso/ Não um gargalhar. A mente passa a se preocupar com outras coisas... A imaginação aflora para um prato com cheiros semelhantes aos do Brasil e daí surge a decisão de experimentar esse prato.
O corpo reage impulsionado pela alegria, pela curiosidade e pelo desejo de sentir o sabor. Mas como? Sem companhia de ninguém? Que graça teria? Que fazer enquanto esperar? Com quem comentar as sensações percebidas pelo paladar já instigado a funcionar pela ideia de saborear o desconhecido prato servido na Argentina? Não, uma experimentação assim tinha que ser em companhia de amigos; no mínimo com pessoas conhecidas que estivessem dispostas a fazer uma experiência dessa natureza e isso, lógico, seria bem fácil já que todos os matriculados no curso de mestrado na turma 02 da NOVVUS-3 teriam de fazer a mesma experiência.
               
4.  PLANEJANDO VIVENCIAR A EXPERIÊNCIA.

O primeiro grupo a ser pensado, claro seria o grupo de colegas com o qual já havia uma relação pré-estabelecida desde o Brasil e em seguida o grupo de colegas com o qual a amizade foi estreitada a partir do primeiro seminário que aconteceu em janeiro.
O grupo de colegas cuja relação tinha sido estabelecida no Brasil tinha compartilhado da experiência de pesquisa do significado da palavra e no momento do encontro foi logo de pronto respondendo à pergunta “Vocês já sabem o que é Puchero?”
— Já, já sabemos o que é Puchero; é um prato feito com grão de bico, carnes e verduras. — responderam um tanto quanto decepcionados com a descoberta.
— Sim, mas quando vamos experimentar? Será que tem algum lugar aqui que vende esse prato?
A esse questionamento várias hipóteses foram levantadas e a que mais teve significado é que o prato deveria ser típico e sendo típico em algum lugar deveria ser servido. E assim foi iniciada uma nova investigação: “Onde é possível comer Puchero em Buenos Aires”?
A primeira ideia foi perguntar aos recepcionistas do hotel onde o grupo estava hospedado, mas para surpresa eles não sabiam onde e também não sabiam do prato. Talvez pelo fato de ninguém do grupo dominar a língua e ter dado uma entonação errada na pronúncia da palavra.
Uma nova manhã se iniciava e no momento do café da manhã a inquietação sobre o prato de nome tão estranho fazia com que se questionasse a todos sobre se sabiam o que era e se sabiam onde comer. Graças a essa curiosidade e revelação do interesse em conhecer, a senhora encarregada em servir o café da manhã ao ser questionada pelo grupo revelou saber o que era e deu ao grupo a dica de onde era possível encontrar um restaurante que servisse esse prato.
Novas esperanças alimentaram o coração e no caminho da faculdade, junto com o grupo de colegas ao qual o primeiro grupo tinha um bom relacionamento começaram os planos para a ida ao restaurante e finalmente saborear o prato. Foi com muita alegria que o convite foi feito:
— E então? Vamos comer Puchero hoje após a aula? — Perguntou Regina aos colegas.
— Vamos sim. A que horas agente se encontra? — Delma respondeu com os olhos brilhantes pela novidade.
— Que tal às sete horas no salão do hotel?
— Está ótimo para mim — disse Miguel.
— Então está fechado. Às sete horas todo mundo pronto no salão do hotel. — Finalizou Adriana.
Uma parada nesse momento para pensar nos sentimento e sensações que invadiram a mente nesse instante. O coração batendo mais rápido, os músculos do rosto contraindo-se num sorriso e a vontade de brincar com os colegas, de falar o nome do prato o tempo todo e convidar mais amigos para dividir o momento com mais pessoas. Além disso, durante o caminho brincávamos com o efeito da nossa respiração no ar frio que envolvia o grupo.
Que manhã deliciosa, alegre e excitante, apesar do frio, foi aquela. Parecia que o calor de um prato ainda desconhecido envolvia o grupo que caminhava rápido, conversando alto e comentando vários assuntos ao mesmo tempo misturando-os tal qual os ingredientes do prato que tanta curiosidade e alegria trazia a todos como a energiza-lo, tal qual o sol.
Na faculdade o grupo relatou sobre o propósito de ir experimentar o Puchero. As colegas do município de amargosa indicaram um restaurante e falaram um pouco sobre o prato, mas os grupos pouco se demoraram comentando a idéia, pois logo o professor-doutor adentrou a sala e após um exame ao grupo com um olhar curioso, fez a chamada e a aula teve início.
“Por que há crianças/pessoas que não querem aprender”?
“É preciso saber porque não o querem e descobrir a forma de motivá-las. E uma vez descoberta a forma de motivá-las, de interessarem-se por um tema/assunto, ver a maneira de trabalhar com elas de forma que compreenda o assunto”
“O professor é quem põe e suprime a distancia. O segredo do professor é saber e conhecer a distância entre o objeto de estudo e o sujeito aprendiz”. (Prof. Dr. Luís María Etcheverry, em sala de aula na USAL, para alunos do mestrado Turma 02 da NOVVUS, Buenos Aires – Argentina, em 26 de junho de 2012).
Nova parada para analisar os sentimentos induzidos por essas palavras: O professor fez isso com o grupo ao apresentar a lista de experiências propostas para conhecer. Mais ainda, quando deu a orientação do que deveria ser observado com relação aos sentimentos, às sensações, aos conceitos que se formariam, etc. Nesse momento um sentimento de admiração pelo professor e mais uma vez a lembrança do projeto de conhecer o prato de estranho nome aflorou à mente.
Por um momento quase que não foram escutadas as palavras do professor. Mas ele já estava falando de conceitos e não simplesmente dando uma explicação, mas induzindo o grupo a pensar sobre conceitos ao fazer os seguintes questionamentos: “Conceito Arbitrário?, Conceito Inconsistente?, Conceito Inviável”?
Nossa, que susto ao dar-se conta que há tantas possibilidades para conceito... E novo pensamento: Qual seria o conceito de Puchero? Como descobrir a história? Naquela noite o grupo iria comer um prato, cujo nome parecia engraçado, mas nada mais se bia sobre ele. Qual sua origem? Por que este nome?
Uma nova consciência: Era preciso saber a história do prato. Fato constatado e ampliado com o que o Professor-Doutor Etcheverry dizia naquele momento: “Os animais não trabalham com conceitos. Trabalham vivenciando a realidade”.
Sim, iria ser feita uma vivência da realidade naquela noite com o experimento do prato Puchero, mas havia a necessidade aflorada naquele momento de saber a história daquele prato. Onde consegui-la? Talvez a forma mais rápida seria a internet. Sim a internet... Quem sabe?
A aula continuava abordando o Mundo Ideal (MI) e Mundo Sensível (MS). MI ligado às representações e MS Ligado às apresentações.  E a dialética entre esses dois mundos faz com que o Mundo Sensível (MS) se eleve até o Mundo das Ideias (MI).

E o pensamento do experimento a ser feito se misturava ao que iria ser feito à noite e ao que deveria ser observado durante o experimento.

5.  O Experimento e Novas descobertas
Ao término da aula e de volta ao hotel os estudantes correm a cuidar de estarem pontos para a saída às sete horas da noite, como foi acordado durante a manhã. O restaurante escolhido foi o indicado pelas colegas da cidade de Amargosa no estado da Bahia – Brasil: Restaurante “El Globo”.
No momento do encontro outros se juntam ao grupo e partem para fazer o experimento. Nesse momento o grupo se multiplica por dois e membros de duas equipes partem juntos para o experimento. São eles: Adriana Mendonça Moreira, Cristina Pinheiro de Souza Ferraz, Delma Nascimento, Jeane Freitas, Miguel Santana, Regina Maria Oliveira de Macedo.
Seis pessoas não cabem em um carro pequeno e por esse motivo todos saem juntos, mas em carros separados. Durante o trajeto os membros do grupo formado por Cristina, Regina e Adriana conversam com o motorista do taxi sobre o prato que vão experimentar e aí se consegue novas informações sobre o mesmo ou seja: O prato Puchero.
Segundo o motorista do Taxi, esse prato teve sua origem  na Espanha em meio à classe popular e foi criado em época de escassez utilizando uma combinação de carnes bovinas de segunda categoria e carne de porco e frango, combinados com legumes, grãos e verduras. Além de ser um prato barato e que alimentava muitas pessoas ele podia durar vários dias. Segundo ele o prato é feito em uma panela grande e posto  na “cocina de leña”.
Uma parada para pensar no que seria “Cocina de Leña”. A imaginação fez com que fosse visualizada uma cozinha feita de toros de madeira e nesse momento foi solto um suspiro sonhador de quem de repente voou até o século 16 quando as casas eram feitas assim. Adriana, única nesse grupo a dominar o castellano nos informou que o motorista se referia ao que no Brasil é conhecido como fogão a lenha. O sonho pareceu explodir no ar como uma bola de sabão.
O pensamento voa para a aula do dia 25 de junho ao lembrar o texto “Método Zen de Estudio a partir de Shunryu Suzuki”[2].
“A naturalidade consiste em algo assim como se sentir independente de tudo, ou em certa atividade baseada em nada”.
“É semelhante a uma semente que não tem ideia de ser certa planta em particular, porém tem sua própria forma e está em perfeita harmonia com o solo, com o ambiente”.

Ao chegarmos no restaurante indicado/sugerido e marcado, o mesmo encontrava-se fechado. Demos muitas risadas, tiramos fotos do local tentando registrar a nossa intenção e esforço em realizar o trabalho.
O restaurante estava fechado... Aqui uma parada para analisar os sentimentos, a sensação causada pelo restaurante fechado: Um misto de surpresa, tristeza e decepção invade a mente e o corpo.

— Não é possível, gente! Como está fechado? Será que só abre aos finais de semana? — Foram os questionamentos partidos de todos. A rua com pouco movimento, o grupo curioso aproximava o nariz do vidro do restaurante sem acreditar que ele não fosse abrir.

As palavras no vidro chamava atenção e alguém pensou em tirar uma fotografia para ilustrar o primeiro informe grupal que seria apresentado ao Professor-Doutor no último dia de seminário, ou seja, na parte da tarde do dia 27 de janeiro de 2012. Jeane Freitas foi a fotógrafa.




Estando próxima ao passeio defronte ao local onde o grupo estava, Jeane localizou uma cafeteria e propôs que o grupo fosse até lá, pois estava muito frio.
Ao lado do restaurante El Globo vimos uma placa da Federação Argentina de Empregadores de Comércio e Serviços. O grupo foi até lá, pois o item quatro da “lista de experiências propostas para conhecer” era justamente “conseguir um trabalho”. Ainda estava aberta; uma jovem atendeu a todos com cortesia. Foi-lhe solicitado informações sobre como conseguir emprego. A jovem deu a orientação de procurar um outro local a oito quadras dalí, o Hotel Continental; pois no local referido não havia vagas.
Após recebida as informações na Federação Argentina de Empregadores o grupo se dividiu e saíram em alguns momentos em dupla, em outros trio e até aconteceu de um membro estar sozinho e chamar o outro para observar algo avistado através da vitrine das casas comerciais existentes no entorno do restaurante escolhido pelo grupo. Impossível nesse momento recordar como aconteceu a descoberta do restaurante que o grupo encontrou para fazer uma nova experiência saboreando outro prato que também constava na lista de experiências, mas o fato foi que, num atravessar de rua, em uma esquina entre a rua Tucuman e San Martin, foi avistado na vitrine do restaurante, o prato Locro Crioullo.



 Um olhar mais atento para o restaurante foi observado que estava com as luzes acesas e havia pessoas trabalhando na arrumação das mesas. Uma nova sensação foi percebida: havia naquele instante a esperança da saída para o planejado jantar com a realização de uma experiência não ser em vão. Descortinava-se a possibilidade de experimentar um outro componentes da lista, o LOCRO.

Uma inquietação invadiu o ser e nesse instante Miguel bateu à porta do restaurante. Os trabalhadores faziam gestos e Miguel insistia em chama-los com gestos e um sorriso nos lábios a repetir “sí, sí...”
A insistência de Miguel foi tamanha que um dos trabalhadores do restaurante, um garçom,  depois de trocar algumas palavras com outro trabalhador que estava próximo ao balcão caminhou até a porta. Ao abrir a porta e falar ao grupo, percebeu que se tratava de estrangeiros. Adriana se aproximou para explicar o que o grupo queria e perguntou sobre o prato Locro. Aqui uma nova parada para analisar sentimentos e experiência: O grupo se preparou para experimentar o Puchero, mas agora surgiu a oportunidade de experimentar o Locro. Que se passa? Se passa a mudança de planos e rapidamente o preparar-se para outra pesquisa e outra experiência.
Todos atentos, o coração a bater acelerado...  O garçom nos explicou que é uma comida de originária dos Andes, consumida em períodos de frio por ser muito substanciosa e calórica. Composta de milho branco, feijão branco, toucinho, chouriço, carnes de segunda de porco e boi. Resolvemos experimentá-la. Perguntamos ao garçom sobre essa possibilidade. Ele nos disse que o restaurante ainda não estava aberto. Miguel perguntou se não era possível deixar o grupo entrar, pois estava muito frio e o fato do grupo ter vindo de uma parte do Brasil onde o grau mais baixo de temperatura era de 22, estavam todos estranhando muito a temperatura. O trabalhador trocou mais algumas palavras com o outro e concordou em deixar o grupo adentrar ao recinto.
Sentados à mesa fotos foram tiradas para o registro, afinal fotografias são documentos. Para que todos aparecessem na fotografia Miguel solicitou ao garçom que batesse a fotografia e esse, gentilmente atendeu ao pedido. A fotografia ficou ótima.



Tratava-se do restaurante “La Posada 1820” situado na “Rua Tucunán 501 (esquina San Martin) ciudad de Buenos Aires”. Um local muito agradável com uma decoração pitoresca onde era possível ver em exposição muitos utensílios antigos que davam aos clientes a sensação de uma viagem no tempo: malas antigas, panelas antigas, bandejas, máquina de costura e bandeiras de outros países, e uma delas era a bandeira do Brasil. Quanta emoção atingiu o coração! Impossível não tirar uma fotografia e de repente uma parada para analisar sentimentos.




A visão da bandeira e o sentimento de alegria e saudade se misturando na mente.
A aula mais uma vez volta a se misturar aos pensamentos: Mundo dos Sentimentos (MS) dialogando com o Mundo Ideal (MI) fazendo emergir a imagem da pátria e a saudade dos familiares que estão distantes e que também fazem o sacrifício da distância, da despesa para que haja a progressão profissional do mestrando.
Um silenciar rápido invadiu a mesa; a chegada do vinho à mesa motivou o brinde aos familiares distantes e ao sucesso no trabalho proposto.
A ida ao restaurante serviu para aproximar mais ainda os colegas e muitos assuntos surgiram sobre suas famílias e sobre os trabalhos que fazem no Brasil. Serviu também para atrair atenção de argentinos que compareceram ao local depois e também aconteceu um enamorar entre o garçom e um dos membros do grupo. Foi a oportunidade de vivenciar outra das experiências solicitadas: “Um Enamoramiento”.
Não um “enamoramiento” entre um homem e uma mulher, mas um flerte homossexual. Esse acontecimento fez refletir o quanto ainda, os brasileiros estão vestidos de uma cultura preconceituosa, ainda é difícil aceitar outra cultura ou outra forma de ser/agir. A própria pessoa que foi paquerada, sendo segura das sua posição e escolha, se constrangeu com o ato acontecido em público. Comentou com as colegas que no Brasil os homossexuais ainda não têm essa abertura de comportamento.
Os pratos foram servidos. A comida saboreada com cuidado. O sabor parecido com o da dobradinha brasileira só que mais suave.


A conta foi pedida, a despesa repartida entre os colegas, agora mais amigos. O grupo retornou ao hotel.


7. Conclusão da Experiência

Chegando ao hotel os amigos se dirigiram para o salão de alimentação e bebericando um pouco de vinho novos questionamentos: O que trouxe ao grupo essas experiências? Quais estruturas foram mexidas?
Que tipo de conhecimento acerca dos pontos levantados foi construído?
Foi possível perceber que houve uma mudança no comportamento de todos enquanto agentes e observadores.
Coisas que se pensava conhecer se teve a oportunidade de vivenciar com outra óptica, agregando outro sentido. Coisas que não eram conhecidas foi oportunizado experimentar ou conhecer através dos registros históricos e outras foi possível pesquisar e debater.
O trabalho apresentado na aula do Professor-Doutor Luís María Etcheverry foi concluído com a citação de Heidegger que diz que “viver uma experiência significa que algo nos passa, nos ocorre, nos toma, nos possui e transforma”. 
Ainda citando o mesmo autor “viver um experiência é andar e desandar os caminhos para retornar própria e explicitamente a esse lugar onde já nos encontramos.”

Regina Maria Oliveira de Macedo.






[1] Página da Internet Na Biroskinha. Endereço: http://www.nabiroskinha.com/2009/10/puchero-e-um-tipo-de-ensopado-preparado.html
[2] Texto contido no módulo disponibilizado pelo Prof. Dr. Luís Ma. Etcheverry com referência a SUZUKI, Shunryu, Mente Zen, mente de principiante, Estaciones, Bs. As., 1994.