quinta-feira, 11 de julho de 2013

A FADA ORIANA - VIII. O POETA


VIII. O POETA

Até que o sol se pôs, veio a noite e o rio escureceu. Oriana deixou de ver o seu reflexo. Levantou-se e ficou algum tempo imóvel a cismar. Depois olhou à sua volta e disse:
- Chegou a noite! Como o tempo passou depressa!
Então lembrou-se de que era a hora de ir visitar o seu amigo Poeta. Porque a única pessoa crescida a quem Oriana podia aparecer era ao Poeta. Porque ele era diferente das outras pessoas crescidas.
O Poeta morava no fundo da floresta, numa torre muito alta e muito antiga, coberta de heras, de glicínias e de roseiras.
Oriana voou sobre as árvores através do primeiro azul da noite. A porta da torre estava aberta, mas Oriana entrou pela janela com a brisa. As rosas da trepadeira estremeceram e dançaram quando ela chegou.
- Hoje vens tarde – disse o Poeta.
- estive debruçada sobre o rio a ver o meu reflexo – respondeu Oriana. - Demorei-me porque fiquei encantada com a minha beleza.
- Oriana, – pediu o Poeta – encanta a noite.
Então Oriana tocou com a varinha de condão na noite e a noite ficou encantada.
E o Poeta disse-lhe:
- O que tu me trazes é muito mais que beleza. No mundo há muitas meninas bonitas. Mas só tu que podes encantar a noite porque és uma fada.
Então Oriana sentou-se na beira da janela e contou as histórias maravilhosas dos cavalos do vento, da caverna dos dois dragões e dos anéis de Saturno. O Poeta disse-lhe os seus versos, que eram claros e brilhantes como estrelas. Depois ficaram os dois calados enquanto a Lua subia no céu. Até que um sino trouxe de longe o som das doze badaladas da meia-noite e Oriana e o Poeta despediram-se.
No dia seguinte de manhã foi levar a velha à cidade. Mal voltou da cidade voou rapidamente para o rio. Ajoelhou-se na margem e inclinou-se sobre a água. O seu reflexo apareceu todo doirado de sol à tona do rio.
- Mas que bonita que eu sou! – disse Oriana. - Hoje ainda estou mais bonita do que ontem. Serei eu realmente tão bonita como me vejo na água?
Oriana olhou bem para os outros sítios do rio onde se refletiam as árvores. E pareceu-lhe que o reflexo das árvores no rio era mais bonito do que as próprias árvores.
- Se calhar – pensou ela – o meu reflexo é mais bonito do que eu! Como é que eu hei de saber a verdade?
Então lembrou-se do peixe e chamou-o:
- Peixe, peixe, peixe, meu amigo!
O peixe apareceu e disse:
- Bom dia, Oriana. Aqui estou.
- Peixe, – disse a fada – preciso de ti. Quero saber se o meu reflexo no rio é mais bonito do que eu.
- Nada no mundo é tão bonito quanto tu – disse o peixe.
- Tu és muito mais bonita do que o teu reflexo. Tens os olhos mais brilhantes, o cabelo mais doirado, a boca mais vermelha.
- Achas que sim?! - perguntou Oriana. E ficou a cismar.
De repente teve uma idéia: Lembrou-se do espelho. Pensou:
- Vou ver o que diz o espelho – disse.
- Até logo, peixe.
E, rápida como uma seta, dirigiu-se a casa do Homem Muito Rico.
A janela estava aberta e a sala estava vazia.
Oriana entrou, disse bom dia às coisas e pôs-se em frente do espelho:
- Espelho – disse ela – olha-me bem, mostra-me como eu sou: vi o meu reflexo no rio e achei-me linda. Mas tenho medo de que o rio me tenha embelezado e lisonjeado como lisonjeia a paisagem. Mostra-me bem como eu sou para ver se o peixe disse a verdade e se eu ainda sou mais bonita do que o meu reflexo no rio.
- Oriana – disse o espelho -, sou, como já sabes, um espelho antiqüíssimo. Há séculos que todas as meninas querem saber se haverá no mundo alguém mais bonito do que elas. Vê-te bem. És muito bonita, mas há uma coisa muito mais bonita do que tu.
- O que é? - Perguntou Oriana, ansiosamente.
- Uma parede branca, nua e lisa.
- Não me fales mais nessa parede – disse Oriana, desconsolada. Mas depois olhou-se muito no espelho e disse:
- Eu acho-me linda.
- Ainda bem – disse o espelho. - mas não imaginas a quantidade de meninas que pelos séculos fora se olharem nos meus olhos de vidro e disseram: “Acho-me linda”!
- Então, adeus – disse a fada, um pouco zangada.
- Não te vás já embora. Quero-te pedir uma coisa.
- O que é?
- Tira outra vez o cabelo do Homem Muito Rico.
- Mas porque é que eu hei de fazer essa maldade?
- Porque ele passa o dia em frente de mim, a ver-se em mim e a dizer: “É um cabelo lindo”. E eu já não o posso olhar.
- nesta casa – disse Oriana – tudo dá mau resultado.
E foi-se embora.
Cá fora pensou:
- Nunca mais volto a essa casa: o espelho fez troça de mim. Aqui nada há que falte e tudo é irremediável.
E foi outra vez para o rio.
Sentou-se a beira da água e apareceu o peixe:
- Peixe – disse Oriana –, vi-me no espelho do Homem Muito Rico, e achei-me muito bonita, tão bonita como neste reflexo do rio. Mas o espelho disse-me que havia uma parede branca que era ainda mais bonita do que eu.
- os espelhos são uns sonhadores, estão sempre a imaginar o que não vêem. És muito mais bonita do que uma parede. Eu nunca vi ninguém tão bonito quanto tu. Mas acho que é uma pena andares tão mal penteada.
- Ah?! – disse Oriana, inquieta.
- Tens de mudar de penteado – disse o peixe. – Eu ensino-te!
E o peixe começou a ensinar:
- Faz riscas ao lado, puxa os caracóis Mara trás, puxa a onda da direita mais para frente, põe a onda da esquerda mais para trás e faz caracóis na nuca.
Oriana fez tudo o que o peixe disse, mas ele ainda não ficou contente. Mandou-a desmanchar o que tinha feito e recomeçar tudo outra vez. Oriana fez e refez ondas e caracóis. Até que começou a escurecer.
- Agora está melhor – disse o peixe. – Mas amanhã vamos experimentar outro penteado.
- Então até amanhã – disse Oriana.
E foi lentamente, cismando, pela floresta fora.
Era quase noite quando chegou à torre do Poeta. Senyou-se na beira da janela e perguntou;
- Achas que estou diferente?
- Não – disse o Poeta. – Acho que estás igual.
- Mas mudei de penteado.
- Não tinha reparado.
Oriana ficou calada, desconsolada com a resposta. O poeta pediu-lhe:
- Oriana, enche o ar de música.
Oriana tocou com a sua varinha de condão no ar e o ar encheu-se de música.
Estava lua cheia e o luar inundava tudo. Cheirava a madressilva e a rosas.
- Oriana – pediu o Poeta –, dança a dança da noite de hoje.
Então Oriana começou a dançar no ar, em pontas dos pés, a “Dança da Noite de Luar da primavera”.
Dançava como as flores dançam no vento, e os braços eram iguais ao correr dos rios.
O Poeta sentou-se na beira da janela a vê-la e do fundo da floresta vieram veados, os coelhos, as aves e as borboletas, para verem a dança da fada.
Até que o vento trouxe de longe o som das doze badaladas da meia noite. Oriana despediu-se do Poeta e desapareceu.
No dia seguinte, de manhã, Oriana, depois de levar a velha à cidade, foi correr a ajoelhar-se em frente do rio. O Peixe já estava à sua espera. Começaram logo a ensaiar penteados. O peixe mandou-a fazer uma coroa de flores, para por na cabeça. Oriana passou a manhã e a tarde a colher flores, a ver-se no rio e a ouvir os elogios do peixe. Esqueceu-se de ir à casa do moleiro e à casa do lenhador. Esqueceu-se de tomar conta dos animais. Esqueceu-se de regar as flores. Mas a noite foi visitar o Poeta.
E, daí em diante, Oriana foi abandonando um por um todos os homens, animais e plantas que viviam na floresta. Um dia abandonou também o Poeta. Foi porque numa tarde o peixe lhe disse:
- Vista à luz do Sol és linda, mas de noite vista a luz de uma chama, deves ser ainda mais bonita.
E nessa noite Oriana, em vez de ir visitar o poeta, encheu a margem do rio com pirilampos e fogoa-fátuos e passou a noite a ver-se na água.  
  
Foi uma noite maravilhosa. Parecia uma festa extraordinária e fantástica no meio do silêncio e da escuridão da floresta. Os fogos–fátuos e pirilampos eram iguais a estrelas pequeninas e Oriana via-se na água rodeada de luzes, de chamas e de sombras, com os seus olhos brilhantes, os seus cabelos luminosos, a sua coroa de lírios e as suas asas transparentes. 
E daí em diante nunca mais foi ver o Poeta. Esqueceu-se de todos os seus amigos. A única pessoa que ela continuava a visitar era a velha, porque sentia imensa pena quando a ouvia dizer que em tempos idos tinha sido nova e linda e agora era velha, enrugada e feia. Por isso, todas as manhãs lhe acendia o lume, lhe punha leite na caneca, café na lata, açúcar no açucareiro, pão com manteiga na gaveta e depois a guiava ao longo do caminho da cidade, para que ela não caísse nos abismos.
Mas mal voltava da cidade com a velha ia rapidamente para o rio, mirar a sua beleza e ouvir os elogios do seu admirador peixe.
E, durante a primavera, Oriana enfeitou-se com coroas e colares feitos de madressilva, margaridas, narcisos, flor de laranjeira, papoulas.
Depois no verão, Oriana enfeitou-se com cravos, rosas e lírios. E no outono enfeitou-se com folhas vermelhas de vinha, com dálias e crisântemos.
Mas quando chegou o inverno só havia violetas. E ao fim de algum tempo o peixe disse;
- Eu acho que o roxo das violetas diz muito bem com o branco da tua pele e o loiro do teu cabelo. Em todo caso há já dias e dias que não mudas de enfeites. Acho que devias variar.
- Como é que eu hei de variar? – respondeu Oriana. – Agora é inverno e não há flores na floresta.
O peixe pensou um bocado e disse:
- podias enfeitar-te com pérolas?
- Mas onde é que eu hei de buscar pérolas?
- Espera um instante – pediu-lhe o peixe.
E passado algum tempo voltou com um anel que deu à fada.
- Toma este anel.
Oriana pegou no anel e ele disse-lhe
- Põe o anel no teu dedo e voa até o mar. E quando chegares à orla das ondas chama pelo peixe Salomão, mostra-lhe o anel e pede-lhe que te traga mil pérolas do mar do Oriente.
Oriana assim fez.
Voou sobre as ondas e chamou:
- Peixe, peixe, peixe Salomão!
E apareceu um peixe preto e azul com os olhos vermelhos, e perguntou:
- Quem me chama?
- Sou eu, a fada Oriana. Trago-te este anel.
- Diz o que queres.
- Quero que me tragas mil pérolas do mar do Oriente.
- Senta-te naquele rochedo – respondeu o peixe Salomão – e espera que eu volte.
Oriana sentou-se no rochedo e esperou sete dias e sete noites. De vez em quando lembrava-se da velha, mas pensava:
“Com certeza que o peixe Salomão não se há de demorar. Ela nem vai dar pela minha falta. Conhece tão bem o caminho que, com certeza, não há de cair no abismo”.
Depois da sétima noite, o peixe apareceu ao romper do dia. Trazia uma grande casca de tartaruga que tinha lá dentro as mil pérolas.
- Obrigada, peixe Salomão – disse a fada.
E pegando na casca de tartaruga, voltou para a floresta.

A FADA ORIANA - IX A RAINHA DAS FADAS

IX. A Rainha das Fadas

M
al chegou à beira do rio, Oriana chamou:
- Peixe, meu amigo, aqui estão as pérolas.
E o peixe trouxe do fundo do rio dez fios de prata e Oriana enfiou as pérolas e fez dez colares.
Enrolou um colar à volta do pescoço, enrolou um colar à volta de cada braço e entrelaçou em seus cabelos os outros sete colares. Depois debruçou-se nas águas. Era um dia de inverno muito luminoso e transparente. E Oriana viu seu reflexo mais claro e mais nítido do que nunca. E nunca se tinha achado tão bonita. O brilho redondo das pérolas rodeava o seu pescoço, refletia-se na sua pele, iluminava o seu cabelo.
- Nunca, nunca vi nada tão bonito! – exclamava ela.
- pareces a rainha do mar, a princesa da Lua, a deusa das pérolas – disse o peixe.
- Nunca mais me vou embora da margem do rio – disse Oriana. – Quero passar o resto da minha vida a olhar para mim.
Mas de repente Oriana calou-se. Porque ouviu no ar um silêncio. E nesse silêncio levantou-se uma voz, uma voz alta, direita e severa que chamou:
- Oriana!
Oriana estremeceu e voltou-se. Ao seu lado, no ar, estava a Rainha das Fadas.
E a voz alta, direita e severa tornou a falar:
- Oriana, o que é que estavas a fazer?
Oriana pálida respondeu:
- Estava a olhar para mim.
- E a tua promessa?
Oriana abaixou a cabeça e não respondeu.
- Oriana – disse a voz –, faltaste à tua promessa e abandonaste a floresta. Abandonaste os homens e os animais e as plantas. As crianças tiveram medo e tu não as consolaste, os pobres tiveram fome e tu não lhes deste comida, os pássaros caíram dos ninhos e tu não os apanhaste, o Poeta esperou por ti até às doze badaladas da meia noite e tu não apareceste. Abandonaste o lenhador, o moleiro, o Poeta. Por fim até abandonaste a velha. Não cumpriste a tua promessa. Durante uma Primavera, um Verão e um Outono passastes os dias e as noites debruçada sobre o rio, a ouvir os elogios de um peixe, apaixonada por ti. Por isso, Oriana, deixarás de ter asas e perderás a tua varinha de condão.
E, dizendo isto, a Rainha das Fadas fez, no ar, um gesto com a sua mão. E no mesmo instante, assim como as folhas das árvores no Outono caem dos ramos, assim Oriana viu as suas caírem dos seus ombros e ficarem de repente secas e mortas como dois papéis velhos. E o vento passou e levou-as pelo ar. Oriana correu atrás delas, mas já não podia voar e as asas desapareceram. E viu sua varinha de condão partir-se aos bocados e desfazer-se em poeira, que caiu no chão.
E Oriana quis apanhar a poeira, e ajoelhou-se no chão. Mas a poeira já estava misturada com a terra e as mãos de Oriana só conseguiram apanhar terra.
E a voz alta, direta e severa tornou a chamar:
- Oriana!
Oriana levantou-se e, com a cara coberta de lágrimas e as mãos cheias de terra, pediu à Rainha das Fadas:
- Dá-me outra vez as minhas asas! Dá-me outra vez a minha varinha de condão! Perdoa-me a minha vaidade. Eu sei que faltei a minha promessa, sei que abandonei os homens, os animais e as plantas da floresta. O peixe encheu-me de vaidade com seus elogios. Olhei tanto para mim que me esqueci de tudo. Mas dá-me outra vez as minhas asas. Eu quero voltar a ser como dantes. Quero voltar a ajudar os homens, os animais e as plantas. Mas sem varinha de condão e sem asas, eu não posso ser fada. Preciso da varinha de condão para poder ajudar os que precisam de mim.
Mas a voz alta, direita e severa da Rainha das fadas respondeu-lhe:
- Vai pela floresta fora e vê o mal que fizeste. Vê o que aconteceu aos homens, aos animais e às plantas que tu abandonaste. A olhar para ti esqueceste –te dos outros. Só tornarás a ter asas quando tiveres desfeito todo o mal que fizeste. Só tornarás a ter asas quando te esqueceres de ti a pensar nos outros.
E mal acabou de dizer estas palavras, a Rainha das Fadas desapareceu.
E Oriana ficou sozinha à beira do rio, com a cara cheia de lágrimas e as mãos cheias de terra.
E ajoelhou-se ao pé do rio para lavar as mãos. Mas quando viu na água a sua imagem sem as asas começou a soluçar e a dizer:
- Asas, asas ai minhas asas! Que feio que é uma fada sem asas! Que ridículo que é uma fada sem asas! Ninguém vai acreditar que sou uma fada. Vão julgar que sou só uma menina bonita, quero ser uma fada.
Oriana sentia-se muito triste e muito sozinha. Lembrou-se do peixe e pensou:
- Vou pedir ao peixe que me ajude. Ele é que teve culpa disto tudo.
E Pôs-se a chamar:
- Peixe, peixe, meu amigo!
Mas o peixe não apareceu.
Oriana tornou a chamar:
- Peixe, peixe, vem me consolar! Vem ver como estou triste, olha o que me aconteceu!
Mas o peixe não apareceu.
- Deve ter fugido para longe – pensou Oriana. – Vou esperar que ele volte.
E esperou, esperou sentada à beira do rio. Mas passaram muitas horas e o peixe não apareceu.
- Que mau amigo, – pensou Oriana – estou triste e ele não me vem consolar.
Então Oriana lembrou-se dos amigos antigos que ela tinha abandonado. E lembrou-se de que a Rainha das Fadas lhe dissera:
“Vai ver o que aconteceu aos homens, aos animais e às plantas que tu abandonaste”.

E, levantando-se, limpou as suas lágrimas e começou a percorrer a floresta.

A FADA ORIANA - X. A FLORESTA ABANDONADA

X. A Floresta Abandonada

E
stava tudo muito quieto e muito calado. A floresta parecia despovoada. Não se ouvia pássaros. Não havia nenhuma flor. Mas havia muitos cogumelos venenosos. E Oriana chamou:
- Pássaros, esquilos, veados, corsas, coelhos, lebres!
Então ouviu um barulho no chão e, pequenina e preta, a víbora apareceu.
- Bom dia! – Disse a víbora.
- Bom dia, víbora – respondeu Oriana – onde estão os outros animais?
- Foram-se todos embora para os montes. Como a fada Oriana os abandonou e não tinha ninguém para os proteger dos tiros dos caçadores, eles tiveram que fugir para muito longe. Só ficaram os ratos, as víboras, as formigas, os mosquitos e as aranhas.
- Ah! – disse Oriana, corando de vergonha.
E perguntou:
- Sabes quem eu sou?
- Não. – disse a víbora. – vejo só que és uma menina muito bonita.
- Não sou uma menina bonita. Sou uma fada, sou a fada Oriana.
- Ah! Mas que esquisito! Onde é que estão as tuas asas? Nunca ninguém viu uma fada sem asas.
- Agora não tenho asas, mas daqui a dias vou voltar a tê-las. É uma história que não ti posso contar.
- Eu, como ando sempre metida debaixo da terra, nunca te tinha visto, mas já tinha ouvido falar de ti.
- Sim? O que disseram de mim?
- Contaram-me que dantes eras muito boa e tomavas conta da floresta, mas um dia abandonaste os teus amigos todos porque te apaixonaste por um peixe.
- Isso é mentira – disse Oriana furiosa. – Nunca me apaixonei pelo peixe. Que história tão estúpida!
- pois fica sabendo que é isso o que se diz. Até contam que tu passavas horas e horas debruçada sobre o rio a fazer penteados e a enfeitar-te com flores só para o peixe te dizer que estavas muito bonita.
- Mas eu nunca me apaixonei pelo peixe. Eu passava horas ao pé do rio porque gostava de me ver no rio.
- Talvez seja como dizes. Mas o peixe contou aos outros peixes, que contaram aos pássaros, que contaram aos coelhos, que contaram às víboras, que tu estavas louca de amor por ele e que só pensavas em te enfeitares para que ele te achasse bonita.
Oriana estava indignada. Sentia-se ridícula. Olhou para a víbora e lhe disse:
- Isso é uma mentira muito estúpida. Uma fada não pode se apaixonar por um peixe. Essa história é má-língua. É a célebre má-língua das víboras.
E, virando as costas, Oriana seguiu o seu caminho, mas enquanto se afastava ouviu o riso mau e sibilante da víbora:
- sssssssssssssss...
Ao fim de muito andar chegou à casa do moleiro. A porta estava aberta. Lá dentro estava tudo na maior desordem: as gavetas e os armários abertos e vazios, o chão e os móveis cobertos de poeira, e havia por todos os lados coisas partidas. A casa parecia ter sido abandonada há muito tempo. O lume estava apagado, os quartos cheios de teias de aranha. Oriana pegou numa vassoura e num trapo e começou a varrer e a limpar a casa. Então ouviu um ruído e uma voz que a chamou:
- Oriana!
Era um rato.
- Oriana, não vale a pena arrumar a casa. Já não vive aqui ninguém senão eu. O moleiro, a moleira e os seus filhos foram viver na cidade.
- Ah! Mas por quê? – perguntou Oriana.
- Um dia desapareceu um dos filhos mais novos, aquele que tem caracóis pretos e que tem quatro anos. O moleiro e a moleira procuraram-no durante nove dias pela floresta toda sem o encontrar, e ao fim de nove dias o moleiro disse:
- O nosso filho perdeu-se na floresta, ou foi comido pelos lobos, ou caiu no rio, que o levou afogado para longe. Não vale a pena procurá-lo mais. Vamo-nos embora da floresta antes que torne a acontecer outro desastre.
- Há muito tempo que eu sentia que ia acontecer uma coisa má – disse a moleira. – Ultimamente tudo me corria torto. Quando eu chegava a casa encontrava tudo desarrumado.
Os meus filhos estavam sempre a cair ao rio e voltavam sempre para casa sujos, rotos e cheios de feridas. Vamos depressa embora da floresta.
E depois desta conversa o moleiro e a mulher fizeram as malas e as trouxas, puseram tudo numa carroça e foram com os filhos para a cidade. Por isso não vale a pena arrumar a casa.
- Foi tudo por minha culpa, – suspirou Oriana – fui eu que os abandonei. Os filhos do moleiro caíram ao rio e voltavam para casa sujos, rotos  e feridos porque eu não tomava conta deles. Até que um se perdeu. Ai como é que eu hei de desfazer o mal que fiz?
E dizendo isto Oriana pôs-se a chorar ao pé do lume apagado.
- É uma grande tristeza – disse o rato – E foi realmente tua a culpa.
Oriana pegou na vassoura, dizendo:
- Apesar de tudo, vou acabar de arrumar e limpar a casa.
Quando chegou ao fim das limpezas, a fada despediu-se do rato e foi outra vez pela floresta fora. Pelo caminho havia pedras que lhe magoavam os pés e tojos e matos que picavam. Quando ela tinha asas, voava por cima dos cominhos maus e só pousava no chão os seus pés quando o chão estava coberto de musgo, de relva macia ou de areia fina.
“Que difícil que é a vida dos homens”, pensou ela. “Eles não têm asas para voar por cima das coisas más”. Andando, oriana chegou à cabana do lenhador. Também ali o lume estava apagado, o chão coberto de pó.
A cama, a mesa e os bancos tinham desaparecido. Então Oriana ajoelhou-se ao pé do lume apagado e chorou. E ouviu uma voz dizer:
- Oriana, que é feito das tuas asas?
Era uma formiga.
- A Rainha das Fadas tirou-me as minhas asas porque eu faltei à promessa que lhe fiz.
- Foi um castigo justo porque tu esqueceste e abandonaste os teus amigos. Vê o que aconteceu nesta cabana. O lenhador e a mulher eram muito pobres. Mas todas as manhãs tu aqui entravas com três pedrinhas brancas. E transformava as pedras em dinheiro, em roupa e em pão. Até que houve uma manhã em que tu não vieste. E daí em diante passou a haver fome, frio e meséria nesta cabana. E um dia o lenhador disse à mulher:
- “Não podemos continuar a viver com tanta miséria. Vamos para a cidade procurar trabalho”.
E fizeram uma trouxa com os seus trapos e pegaram nos móveis às costas e com o filho pela mão partiram para a cidade. Iam tristes e choraram muito quando se despediram desta cabana, onde eram felizes, no tempo em que tu todos os dias os visitavas com três pedras brancas.

- Ai, formiga – disse Oriana, soluçando –, como é que eu hei-de desfazer todo mal que fiz? Só agora é que eu compreendo como a floresta precisa de mim.

- Não sei que conselho te hei-de-dar – respondeu a formiga. – Mas já que estás arrependida de nos teres abandonado, já que queres voltar a ajudar os homens, os animais e as plantas, faz-me um favor.

- O que é? – perguntou Oriana, limpando as lágrimas.

- Pega numa pedra branca e transforma-a numa pedra de açúcar.

- Ai, formiga! – disse Oriana. – Já não tenho varinha de condão. Não posso fazer o que me pedes. Já não sirvo nem para ajudar uma formiga.

- Então se não me podes ajudar, adeus, Oriana. Tenho muito o que fazer.

E, com um ar muito atarefado, a formiga foi-se embora.

Oriana suspirou, levantou-se e saiu da cabana.

Cá fora já anoitecia. A fada pôs-se a caminho da torre do Poeta. A torre ficava longe e o caminho era selvagem, cheio de picos e de pedras. Oriana caminhava cortando a cada instante os seus pés. Não se ouvia cantar nenhum pássaro, não se via correr nenhum coelho, não se via aparecer nenhum veado com seu ar majestoso e os olhos humidos de doçura. Em toda a floresta pairava o silêncio, o abandono, a solidão. Quando Oriana chegou à torre, era já noite fechada. E ela levava os pés em sangue e o coração pesado.
A porta da torre estava aberta. Oriana entrou, subiu as escadas, pensando:
- O Poeta vai me consolar, vai-me dizer o que hei de fazer. Ele vai encostar a minha cabeça ao seu ombro para que eu possa chorar, chorar até que a minha solidão se desfaça.

Oriana abriu a porta do quarto do Poeta. E viu que o quarto estava vazio. Os papéis que dantes cobriam os móveis e o chão tinham desaparecido. Mas a lareira apagada estava cheia de cinza de papéis queimados. E o vento, que entrava pela janela, espalhava as cinzas. Estava tudo coberto de cinza.
Oriana atravessou o quarto e os seus pés feridos deixaram pegadas vermelhas de sangue sobre a cinza macia e branca. E ela ajoelhou-se em frente dos papéis queimados e, com a cara coberta de lágrimas, disse:
- Vim à procura do meu amigo e não o encontrei. Oh, como é que poderei desfazer o mal que fiz! Eu quebrei a felicidade dos homens, dos animais e das coisas. Eu esqueci a minha palavra e abandonei a minha promessa. Agora só encontro lumes apagados, casas vazias e cinza.

Então uma aranha desceu do teto, agarrada ao seu fio brilhante, e perguntou:

- És a fada Oriana?

- Sei que sou Oriana, mas já não sei se sou fada. Faltei à minha promessa e a Rainha das Fadas castigou-me: o vento levou as minhas asas e a minha varinha de condão transformou-se em poeira.

- É um castigo justo – disse a aranha, - porque tu abandonaste os teus amigos. Ouve o que aconteceu nesta casa: uma noite tu não vieste. E no dia seguinte, mal caiu a noite, o Poeta encostou-se à janela à tua espera. E quando uma folha mexia, quando um ramo seco estalava ou quando a brisa fazia dançar as ervas, ele dizia: “É Oriana”. Mas não eras tu. Tu nunca mais voltaste. E ele esperou noites e noites sem fim. Sem ler, sem escrever, sem fazer nada.
Passeava pelo quarto e falava sozinho. Até que uma noite, quando cantou o primeiro galo da madrugada, ele disse:
- “Oriana mentiu. Ela tinha-me dito: “Nunca, nunca te hei-de abandonar”. Mas eu tenho esperado, esperado, esperado. As noites têm passado devagar, uma por uma. Oriana já não aparece.
O mundo está desencantado. Quero ir para a cidade e quero tornar-me igual aos outros homens.
Quero tornar-me igual aos homens que não acreditam em encantos e que não escrevem versos. Vou queimar todos os meus livros e papéis”.

- E depois de ter dito isto fez um grande fogo na lareira com os livros e papéis onde estavam escritos os seus versos.
Ficou sentado a ver arder o lume e o reflexo da chama dançava na sua cara pálida e triste. E quando tudo se desfez em cinza, ele levantou-se e partiu para a cidade. E eu vi-o desaparecer na luz fria da madrugada.

- Foi minha a culpa - disse Oriana. - Como é que eu agora poderei fazer renascer os seus versos da cinza? Como é que eu hei-de fazer que a alegria e a amizade do meu amigo renasçam desta cinza? Ai, como o peixe me iludiu e me enganou com os seus elogios! Eu quero desfazer o mal que fiz. Irei à cidade buscar os meus amigos homens; irei aos montes buscar os meus amigos animais.


E, levantando-se do chão, Oriana despediu-se da aranha e partiu para a cidade. Atravessou outra vez a floresta, ferindo os seus pés nas pedras e rasgando-se nos tojos. Passou pelo caminho cheio de abismos e, quando era meio-dia, chegou à cidade.

A FADA ORIANA - XI. A CIDADE

XI. A Cidade

As ruas estavam cheias de gente e Oriana sentiu-se muito perdida e muito tonta no meio de tantas casas, de tanto barulho, de tanta agitação. Olhava por todos os lados à procura de alguém que a pudesse ajudar. Mas só via desconhecidos, que passavam sem sequer a ver.
Resolveu perguntar ao sinaleiro:
- Diga-me, se faz favor, senhor sinaleiro conhece um moleiro que veio da floresta e que tem onze filhos?
- Nesta cidade há um milhão de pessoas e eu não conheço moleiros. Siga, siga, está a interromper o trânsito!

E Oriana seguiu, empurrada pela multidão.
Depois perguntou a um vendedor de jornais:
- Diga-me, se faz favor. Sabe onde vive um moleiro que veio da floresta e que tem muitos filhos?
- Nesta cidade vive tanta, tanta gente! Como é que eu hei-de saber onde vive o moleiro? Deixe-me passar!
Então Oriana entrou numa loja de chapéus e a dona da loja veio ter com ela a correr.
Oriana perguntou:
- Conhece um moleiro que veio da floresta e que tem onze filhos?
- Não, não conheço. Mas tenho aqui um chapéu lindo que parece feito de propósito para si. Sente-se em frente do espelho e vai ver como fica bonita.
Mas Oriana lembrou-se do peixe e saiu da loja a correr. Depois viu um homem que estava sentado numa esplanada a beber cerveja e perguntou-lhe:
- Conhece um moleiro que veio da floresta e que tem muitos filhos?
- Não conheço nenhum moleiro, mas quero conhecê-la a si, porque nunca aqui na cidade vi uma menina tão bonita.
Oriana tornou a lembrar-se dos elogios do peixe e fugiu, espavorida.
E assim foi perguntando pelo moleiro a muita gente, mas ninguém lhe dava resposta certa. Depois de ter percorrido muitas ruas cheias de lojas, de carros e de homens, foi ter a um bairro muito pobre, do outro lado da cidade. As ruas eram escuras e estreitas e sujas. Tão escuras, tão estreitas, tão sujas, que o sol, quando ali chegava, empalidecia.
- Que sítio tão triste! - pensou Oriana.
E passou um gato.
- Olá, gato - disse Oriana. - Sabes onde é que mora um moleiro que veio da floresta e que tem onze filhos?
- Sei - disse o gato. - Vem atrás de mim. Atravessaram duas ruas e entraram no número 9537. Subiram até ao quarto andar e bateram à porta.
A mulher do moleiro apareceu.
- Bom dia – disse Oriana. – Eu sou a fada Oriana e vim da floresta à tua procura.
- Que coisa tão esquisita - disse a moleira. - Onde é que estão as tuas asas?
Oriana contou-lhe a sua história e pediu-lhe que voltasse para a floresta.
- Daqui em diante - disse ela - tornarei a tomar conta dos teus filhos e a arrumar a tua casa.
Mas a mulher do moleiro não acreditava no que ela dizia.
- Eu não acredito em fadas. Só acreditarei nas tuas palavras e só irei de novo para a floresta se primeiro me trouxeres o meu filho que se perdeu.
E, tendo dito isto, fechou a porta.
Oriana, muito triste, voltou-se para o gato e disse:
- Ninguém acredita em mim. Estou tão, tão cansada! Diz-me: sabes onde mora o lenhador que veio da floresta? Talvez ele acredite em mim.
- Não, não sei – disse o gato.
E despediram-se.
Oriana foi outra vez sozinha pelas ruas fazendo perguntas a que ninguém respondia.
Até que encontrou um cão vadio.
- Diz-me, cão, sabes onde mora o lenhador que veio da floresta com a mulher e o filho?
- Sei – disse o cão. – Vem atrás de mim.
E Oriana seguiu o cão até que chegaram os dois a um bairro miserável. As casas eram feitas de latas, as mulheres eram pálidas e desgrenhadas, os homens tinham fatos rotos e caras por barbear.
As crianças brincavam na lama.
- É ali - disse o cão apontando para um casebre meio desfeito.
Oriana espreitou para dentro do casebre.
A mulher do lenhador estava sentada no chão e tinha o filho a dormir no colo. Estavam os dois tão pálidos e tão magros que Oriana mal os reconheceu. Não havia nem cama, nem colchão, nem banco, nem móvel nenhum. Havia só, a um canto, um monte de trapos.
Oriana sentiu os seus olhos encherem-se de lágrimas. Sentiu um nó na garganta e um terrível peso sobre as suas costas. Era como se tivesse umas asas de chumbo. E, chorando, falou assim à mulher do lenhador:
- Eu sou a fada Oriana, que te abandonei. É por minha culpa que tu és tão desgraçada. Perdoa-me o mal que eu te fiz e ajuda-me a desfazê-lo.
- Que mal é que tu me fizeste? – perguntou a mulher.
- Eu nunca te vi.
Oriana contou-lhe tudo. A mulher respondeu:
- Eu sempre pensei que na floresta devia haver uma fada. Ai!, Porque é que nos abandonaste? Ouve a nossa história:
“Quando chegámos à cidade o meu marido arranjou um emprego no cais. Mas o que ganhava era muito pouco. Alugámos um quarto, mas ao fim de algum tempo não podíamos pagar a renda e o senhorio pôs-nos na rua e ficou com os nossos móveis. Então viemos para este casebre, e com os nossos trapos fizemos uma cama no chão. E veio o Inverno, e o vento e a chuva não nos deixavam dormir. E nós púnhamos o corpo do nosso filho entre os nossos corpos para que a chuva não o molhasse e o vento não o gelasse. E o Inverno continuou.
Um dia o nosso filho adoeceu, e não parava de tossir. E durante a noite o calor do nosso corpo não chegava para o aquecer. Veio o médico, deu-lhe um remédio e disse: “Ele precisa de dois cobertores bem quentes.” E no dia seguinte, depois do trabalho, o meu marido foi pela cidade pedir esmola de porta em porta. Mas só lhe deram seis moedas e ele precisava de cinquenta para comprar os cobertores. E no dia seguinte ele passou perto duma loja, onde estavam cobertores à venda. E ele era um homem bom e honrado, mas o nosso filho estava a morrer de frio. Por isso roubou dois cobertores e fugiu. Mas veio o dono da loja e chamou a Polícia e foram atrás dele. E gritavam:
- “Agarra que é ladrão!!! Ladrão! Ladrão!”
“E levaram-no preso e meteram-no na cadeia. E eu fui à porta da cadeia pedir por ele, com o meu filho nos braços. Mas mandaram-me embora e disseram-me que o pai do meu filho era ladrão. E agora eu estou aqui sentada e não posso fazer nada, nada. Tu, que és uma fada, ajuda-nos.
- Que mau é o mal que eu fiz! – disse Oriana. – Quando eu me debruçava sobre o rio via os meus cabelos, a minha cara, o meu pescoço igual a uma torre branca e direita. E o mal que eu fazia parecia-me bom e lindo. Mas agora eu vejo que o mal que eu fiz é casas vazias, lumes apagados, fome, frio, lágrimas, prisões.
- Ajuda-me – pediu a mulher do lenhador.
- Volta comigo para a floresta – disse Oriana. – Eu prometo que de hoje em diante nunca mais te abandonarei.
- Só vou contigo se primeiro fores à prisão buscar o meu marido.
Sem ele não posso ir.
- Então espera por mim – disse Oriana. – Eu vou buscar o teu marido.
E Oriana foi outra vez pela cidade fora. Andou, andou, até que chegou à porta da prisão. Era uma porta triste, escura, cheia de manchas de humidade.
- Bom dia – disse ela ao guarda. – É aqui que está preso um lenhador que roubou dois cobertores de lã?
- É aqui – disse o guarda.
- Peço-te que o soltes. Ele é meu amigo e não é um ladrão.
Eu sei que ele não é um ladrão.
- Roubou – disse o guarda. – Por isso é um ladrão.
- Ele roubou porque o filho dele estava a morrer de frio, por isso não é um ladrão.
- A lei diz que ele é um ladrão – respondeu o guarda.
- Não quero que digas que ele é um ladrão – disse Oriana.
- Estás a insultar a autoridade. Vou-te mandar prender – disse o guarda.
E chamou:
- Venham cá dois guardas prender esta rapariga.
Oriana, quando ouviu isto, fugiu a correr. E ninguém a conseguiu agarrar, porque, embora ela já não tivesse asas, ainda era uma fada e por isso corria muito mais depressa do que os homens.
E Oriana foi pela cidade fora. Ia tão aflita que falava alto sozinha. E as pessoas riam-se, dizendo:
- É uma doida que vai a falar sozinha.
E Oriana fugia, envergonhada.
Mas havia outras pessoas que diziam:
- Ai que menina tão bonita! Nunca uma menina tão bonita pisou as ruas desta cidade. Parece um lírio de Maio, parece uma estrela.
E quando ouvia isto, Oriana fugia ainda mais, porque se lembrava dos elogios do peixe.
Até que anoiteceu. Apagou-se a luz do Sol e acenderam-se as luzes da cidade. Havia luzes azuis, luzes verdes, luzes brancas, luzes amarelas, luzes roxas, luzes vermelhas. E o chão da cidade era brilhante e preto.
Oriana pôs-se à procura do Poeta.
Procurou-o nas ruas, nas praças, nos jardins públicos.
Procurou-o nos cafés, nas pastelarias, nas esplanadas, nas tabernas. Procurou-o nos miradouros, nas paragens dos eléctricos e nas saídas dos cinemas. Até que as luzes da cidade se foram apagando uma por uma. E quando cantou o primeiro galo, de madrugada, só já havia uma casa com luz.
- É ali - disse Oriana.
E caminhou para a luz. Foi ter a uma rua larga com casas altas. Oriana já por ali tinha passado de tarde. Mas a essa hora a rua estava cheia de gritos, de pessoas, de movimento, de barulho, de carros. Agora estava tudo quieto e calado. As portas e as janelas estavam fechadas. Só havia uma porta aberta, onde brilhava a luz que ela tinha visto.
Oriana espreitou e viu uma grande sala com muitas mesas pequenas que tinham tampas de mármore brancas e frias. Era um café que de dia estava cheio de gente. Agora não havia ali quase ninguém. Havia só um criado com sono, encostado ao balcão, quatro homens escuros sentados à roda de uma mesa, à direita da entrada, e, ao fundo, sozinho, sentado em frente de um copo vazio, estava o Poeta. Oriana atravessou a sala em silêncio e sentou-se em frente dele. O Poeta estava tão perdido nos seus pensamentos que nem a viu chegar. Os seus olhos olhavam para longe e não viam. A fada tocou-lhe levemente na mão, dizendo:
- Sou eu. Sou a fada Oriana. Voltei!
- Oriana – disse ele, rindo.
E ficou um momento calado. Mas depois o seu sorriso desfez-se, a sua cara tornou-se triste e dura. E perguntou:
- Onde é que estão as tuas asas?
- Já não tenho asas - respondeu Oriana, baixando a cabeça.
- Onde é que está a tua varinha de condão?
- Perdi-a - disse Oriana.
- Se és Oriana, encanta a noite.
- Não posso.
Então o Poeta disse-lhe, quase gritando:
- Não és Oriana. A tua cara é igual à cara da fada Oriana, mas mentes porque não tens asas e não podes encantar a noite. Não és Oriana. O Mundo está desencantado. Oriana vive na floresta com as árvores, com o vento, com as flores. Aqui não há
Oriana. Vai-te embora. Depressa.
Falava cada vez mais alto. As pessoas começavam a olhar para eles. Oriana tapou a cara com as mãos. E o Poeta gritou:
- Desaparece!
Oriana levantou-se e, escondendo a cara, saiu a correr do café.
Ouviu os criados e os quatro homens rirem quando ela passava.
Fugiu pela rua fora e os risos e as troças corriam atrás dela.

E Oriana voltou para a floresta.